D. Silvia Curado, fazendo alfenim na Cidade de Goiás, terra de Cora Coralina.
Hoje, lembrei-me do alfenim, doce que trouxe na minha bagagem de férias.
Fiz uma breve pesquisa na internet e encontrei referências a essa guloseima em Portugal Continental, na Ilha da Madeira e nos Açores.
No Brasil, havia citações em lugares tão díspares quanto a Região Nordeste, o Acre e Goiás.
0 alfenim, que o povo também chama alfeninho - do árabe al-fanid - é, na definição de Luís da Câmara Cascudo, uma massa de açúcar, seca, muito alva, vendida em forma de flores, animais, cachimbos, peixes etc. e ainda de pombinhos, galinha chocando, cestinha com flores, homens, pilãozinho, sapatinho, chave, margarida, menina, jacaré, canário etc., conforme desenho de Manuel Bandeira ilustrando um trabalho do sociólogo Gilberto Freyre sobre o açúcar, variando sempre de conformidade com a imaginação do fazedor (do livro Comes e Bebes do Nordeste, de Mário Souto Maior).
Foi para os Açores, com os primeiros elementos mouriscos que ali se fixaram, sendo a sua divulgação facilitada com a produção de cana-de-açúcar, verificada até aos finais do séc. XVI. Com o decorrer dos tempos, a doçaria conventual ter-se-ia apropriado do alfenim, aperfeiçoando não só a massa como também as figuras que com ela são feitas. O alfenim ainda hoje é muito freqüente e apreciado nas ilhas do grupo central, sobretudo na ilha Terceira (Gourmet Sabores).
Dessa mesma maneira e período histórico, teriam chegado à Ilha da Madeira e ao Brasil.
Ainda é possível encontrar alfenim no Seridó Potiguar e outras partes do Nordeste.
Ainda sobre o alfenim, o texto a seguir, de autoria de J. H. Pires Borges, traz curiosidades históricas sobre esse doce.
Alfenim, o sabor árabe no ritual cristão…
No Século VIII, os árabes invadem e ocupam a Península Ibérica e terá sido nessa altura que introduziram esta gulodice, confeccionada com açúcar ou melaço de cana, designada por “al-fenid” ou “al-fanid”, significando a palavra árabe branco ou alvo e derivando em “alfenim”, na língua portuguesa, e que era um doce muito popular no sul de Portugal. A guloseima “al-fenid” ou “alfenim” vai influenciar a confecção de doçaria na região do Algarve e, também, em Portugal.
Em 1404, no tempo de D. João I, inicia-se o cultivo da cana-de-açúcar no Algarve, devido à grande procura do açúcar. Em 1425, o Infante D. Henrique manda introduzir a cana-de-açúcar na Ilha da Madeira. Assim, aumenta a produção de açúcar a nível nacional e permite a variedade e a qualidade da doçaria em Portugal.
Em 1465, algumas famílias do Algarve vêm povoar a parte oeste da Ilha Terceira, ou ilha de Jesus Cristo, nos Açores, e, possivelmente, poderão ter introduzido esta arte de confeccionar o açúcar e transformá-lo em “alfenim”. Por exemplo, essa influência mourisca está patente na Ribeira do Mouro, na freguesia das Cinco Ribeiras.
No século XVI, o Alfenim aparece citado em obras de Gil Vicente e de Jorge Ferreira de Vasconcelos por ser uma gulodice popular em Portugal.
Com o descobrimento e colonização do Brasil, é introduzida a cana-de-açúcar, onde, também, se passa a fabricar o “Alfenim” ou “Alfeninho”. Em 1516, foi enviada ao Papa Leão X a escultura do Sacro Colégio, com todos os cardeais em tamanho natural feitos em alfenim, que foi oferta do Terceiro Capitão Donatário do Funchal, D. Simão Gonçalves da Câmara.
O culto do Espírito Santo tem um grande incremento a partir do século XII-XIII, quando do “Milagre das Rosas” da Rainha Santa Isabel e a Coroação dos Pobres na Vila de Alenquer, iniciando-se a Devoção ao Divino do Espírito Santo - Terceira Pessoa da Santíssima Trindade, simbolizado pela Pomba Branca.
Mais tarde, o “alfenim” ou “al-fenid”, devido á sua brancura, que é subentendida como pureza e purificação, foi assimilado e introduzido no culto religioso cristão. Desde então, o doce “alfenim” foi transformado em peças de arte gastronômicas, tais como a Pomba Branca, representando o Espírito Santo, e todos os outros símbolos utilizados no ritual de celebração da Festa do Espírito Santo ou dos Santos Padroeiros como a coroa, a rosquilha de pão, os animais e outros motivos decorativos, que eram doados à Irmandade do Espírito Santo ou outras e, mais tarde, leiloados, revertendo a venda para a organização da festa.
No caso de graça obtida, a pessoa encomenda à doceira que confeccione uma peça com a simbologia ou outras formas, em “alfenim”, indicando o peso da peça que pretende, a parte do corpo que beneficiou de uma graça do Divino Espírito Santo: um braço, uma perna, um pé etc.
O “alfenim” surge, assim, associado às Festas do Espírito Santo e dos Santos Padroeiros, ofertado em retribuição das graças obtidas.
O Memorial Iberê Camargo foi inaugurado em maio deste ano, na cidade de Porto Alegre. O projeto do prédio, de autoria do arquiteto português Álvaro Siza Vieira, recebeu o Leão de Ouro na Bienal de Arquitetura de Veneza, em 2002.
O edifício abriga a coleção de mais de quatro mil trabalhos de Iberê Camargo, dispondo de nove salas de exposições, ateliê de gravura, ateliê do educativo, auditório, centro de documentação e pesquisa, átrio, loja, cafeteria e estacionamento subterrâneo.
Iberê é um dos principais artistas plásticos brasileiros do séc. XX e deixou uam obra que inclui pinturas, desenhos e gravuras.
Faça uma visita virtual, clicando aqui. Na tela que vai abrir, é só clicar no link 'Faça uma visita virtual...', localizado no canto direito inferior. É possível dar um giro de 360º em algumas áreas do Memorial.
Além de conhecer o espaço, você encontrará muitas informações interessantes sobre o artista e a programação desenvolvida lá.
No último dia 17, pretendia escrever sobre uma coisa e saiu outra. Veja aqui.
Hoje, retomo a idéia que havia ficado para trás.
Tirar um livro da estante é puxar um novelo de histórias que vou desenrolando e no qual, quase sempre, me confundo.
Um acontecimento, um mero instantâneo aparentemente desconexo leva a outro, que, por sua vez, remete a outro, numa sucessão que não tem fim.
Em alguns momentos, estou buscando um livro específico, que parece querer se esconder. Em outros, o livro me procura, cai sobre mim.
Pois bem. Mexendo neles, reencontrei Dedetização: dia de festa, de Fátima Ferreira, lançado em 1981. É o primeiro ou segundo livro dela.
A pergunta inevitável foi: por onde anda Fátima? Penso que já faz algum tempo que está afastada da literatura, ou apenas das publicações, talvez dedicando-se unicamente às lides jurídicas.
Lembrei-me com carinho da Fátima poeta, editora de jornais de poesia, organizadora de exposições, integrante do movimento de escritores independentes; da Fátima, olindense, cuja imagem ficou na mente tão associada a Olinda.
Nossa geração não se contentava apenas em escrever. Não esperávamos as oportunidades surgirem. Um traço comum é que criávamos os meios de mostrar nosso trabalho. Outros podem ter feito isso, mas, no nosso caso, a opção foi radical. Daí a alcunha de independentes, nesse sentido, ter sido bem utilizada, uma independência que se expressou também pelo não atrelamento aos círculos viciados do patrimonialismo literário. Ninguém nos segurou.
Voltando ao livro, o poema que lhe dá título tem força e sutileza:
Bibliotecas disponibilizam acervo digital e entram na era dos portáteis
Bibliotecas norte-americanas expandiram o acesso a seus acervos em formato digital, permitindo que seus usuários baixem livros de sites como o da Biblioteca Pública de Phoenix. Disponibilizados gratuitamente, os títulos podem ser lidos por diversos tipos de programas e, caso as obras não estejam disponíveis no momento, acontece o arquivamento para uma futura visita. As obras permanecem no computador dos usuários por cerca de três semanas, desaparecendo por completo após o tempo de empréstimo.
Novo tipo de leitor em formação
O caderno Link do jornal O Estado de S. Paulo destacou alguns dados da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, do Instituto Pró-Livro, em uma reportagem sobre as possibilidades de mudanças no mercado editorial a partir do uso das tecnologias digitais. Já são cerca de 7% os leitores brasileiros que baixam livros pela web, lendo as obras diretamente em monitores e PDAs (computadores de bolso). Só no site Domínio Público, criado em 2004, são 75 mil títulos oferecidos gratuitamente, sendo Shakespeare um dos autores mais baixados (8,5 milhões de downloads) e ADivina Comédia, de Dante Alighieri, o livro mais requisitado (500 mil downloads).
Prêmios literários
Prêmio Casa de Rui Barbosa 2008 Período de inscrições: até 30 de setembro Aberto a: monografias realizadas a partir do acervo bibliográfico e arquivistico da Fundação Casa Rui Barbosa. Premiação: R$ 9 mil para o primeiro colocado e R$ 6 mil para o segundo. Mais informações
Simpósio Internacional Caminhos Cruzados: Machado de Assis será transmitido via web
fonte: wikimedia commoms
Simpósio Internacional Caminhos Cruzados: Machado de Assis será transmitido via web
O Simpósio Internacional Caminhos Cruzados: Machado de Assis pela Crítica Mundial acontece no período de 25 a 29 de agosto, no auditório do MASP, em São Paulo. Este ano comemora-se o centenário da morte Machado de Assis.
O evento, com acesso gratuito ao público, reúne importantes nomes da crítica nacional e mundial especializada no autor.
Entre os nomes brasileiros, estão Roberto Schwarz, Valentim Facioli, Alberto Costa e Silva, Gilberto Pinheiro Passos, Antonio Carlos Secchin, Hélio de Seixas Guimarães, Carlos Alberto Vogt, Lúcia Granja, Luiz Roncari e Sérgio Paulo Rouanet.
No âmbito internacional, há presenças de estudiosos da Europa, Américas do Norte e Sul, a exemplo de Daphne Patai (Universidade de Massachusetts), Jean Michel Massa (Universidade de Rénnes 2), Abel Barros Baptista (Universidade Nova de Lisboa), Amina di Munno (Universidade de Gênova), Dain Borges (Universidade de Chicago), Elide Valarini Oliver (Universidade da Califórnia), Jorge Edwards (Chile - Prêmio Cervantes), Kenneth David Jackson (Universidade de Yale), Paul Dixon (Purdue University), Thomas Straeter (Universidade de Heidelberg), Todd Garth (US Naval Academy) e Victor K. Mendes (Universidade de Massachussets).
A saudação, em nome dos escritores brasileiros, será feira pelo escritor Milton Hatoum.
Veja a programação completa do evento no site oficial: www.machadodeassis.unesp.br/simposio . Outras informações podem ser obtidas pelo e-mail simposio@machadodeassis.unesp.br e/ou telefone (11) 3871-2339.
Quem não estiver em São Paulo, pode assistir, ao vivo, pela Faac WebTV, no endereço www.faac.unesp.br/webtv
MACHADO DE ASSIS - foi um romancista, contista, poeta e teatrólogo, considerado um dos maiores escritores brasileiros e identificado, pelo crítico Harold Bloom, como o mais importante escritor afro-descendente de todos os tempos.
É tido como um dos criadores da crônica no país. Foi também um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras e seu primeiro presidente.
Vi as reportagens, fiquei sabendo pelos comentários dos amigos, que a Livraria Cultura, instalada no Cais da Alfândega, era um negócio extraordinário. Uma série de viagens foi adiando minha primeira visita ao novo território cultural da cidade. Além disso, queria ir com um dinheiro extra para não ficar horas lambendo os livros e depois sair de mãos vazias. Por força das circunstâncias, especialmente da fiscalização, há tempos não roubo livros.
Pois no sábado, olhei o saldo no banco e tinham depositado o tal dinheiro extra. À tardinha, tomei um banho demorado e fiquei pensando neles, os meus preferidos: Lawrence Durrell, Bruce Chatwin, Roberto Bolaño, Vicente Huidobro, Ernesto Sábato, Robert Arlt, Oswaldo Soriano etc. Não, amigos, não sou adepto dos medalhões. Acho um tédio esse negócio de todo mundo considerar Flaubert, Dostoievski, Proust, Neruda os donos da pelota. Tenho vários crimes literários. Larguei, sem remorso, "Crime e Castigo" pela metade. Neruda não chega aos pés de Huidobro e o leio até com um certo desdém. O Quarteto de Alexandria, de Durrell, me comove mais que toda a obra de Proust que, por sinal, só li o primeiro volume. Prefiro mil vezes Mia Couto, de Angola, que o alardeado Rubem Fonseca e toda sua prole de "autores brutais" que o Brasil tem nos presenteado. Se é para ser brutal, vou de Henry Miller.
Peguei o renomado Alto Santa Isabel, da Transcol (informo que o proprietário bebe aqui em seu Vital), atravessei a ponte (prometi este ano decorar o nome de todas as pontes do Recife) e vi, de longe, o nome "Cultura". Quando cheguei, já vi que o negócio era profissional. Tinha uma moça com walk-talk na entrada, pastorando os leitores, e a porta era de vidro, automática. Entrei, era tudo lindo e refrigerado. Perguntei à moça do computador se tinha livros do Roberto Bolaño. Tem sim, Noturno do Chile, respondeu ela, com uma voz de veludo, mas com aquela elegância programada das aeromoças. Em trinta segundos, eu estava com o livro nas mãos.
A primeira pessoa conhecida que encontrei foi Benira, do JC OnLine. Ficamos a conversar umas coisinhas até que ela foi para um lado, e fiquei com a literatura estrangeira. Lamento informar, meus leitores, mas os meus preferidos estavam em baixa. Do Durrell, só livro de poemas (que é muito ruim, por sinal), e nada do Bruce Chatwin. Fiquei perambulando, olhando o monumento que é a livraria, com uma parte só para CDs, outra para DVDs, outra só de literatura infantil (como estão lendo, essas crianças de hoje!) e uma parte de livros técnicos.
É tudo muito bonito, os vendedores são educadíssimos, há computadores para consultas imediatas, tem cafeteria (tomei um expresso por 3 contos), mas depois de meia hora, o que senti mesmo foi uma bruta saudade da Livro 7.
Sim, amigos, a lendária Livro 7, do Tarcisio Pereira, fez parte da vida de muita gente, especialmente da minha. Aliás, fez parte da história do Recife. Foi lá que encontrei abrigo nas noites mais tristes, naquele período liseira total de Casa do Estudante, entre 1987 e 1992, meu primeiro ciclo de "estudante-que-depende-do-restaurante-universitário-da-Federal".
Quantas horas eu não passei na Livro 7, entre aquelas prateleiras rústicas?! Lembro daqueles vendedores com cara de que moravam na UR-7, Ibura, Cohab 7, menos cabeça feita que os da Cultura, mas capazes de comentar sobre o resultado do Santa Cruz na rodada anterior e falar do resultado do jogo do bicho da noite. Sim, gente que bebe cerveja em copo americano, e pede um "ele/ela" na saída do trabalho para desafogar o cansaço. E as fotos emolduradas nas paredes? Hermilo, Ariano, Osman Lins. Eu, que tinha chegado de Fortaleza com uma bagagem cultural meia-boca, comecei a encontrar essas criaturas e descobri que meu coração ficaria por aqui mesmo. Para completar, eu tinha um jornaleco na Casa do Estudante, o "Correio Cultural", e Tarcisio apoiou diversas vezes, dando uma grana fundamental para o projeto não morrer.
Voltei da Cultura com três livros (Bolaño, Gay Talese e Paulo Mendes Campos), mas atravessei a ponte de volta com uma puta saudade da Livro 7. Lembro que eu estava em São Paulo, quando recebi a notícia: a Livro 7 fechou. Foi como se o Acho é Pouco tivesse se dissolvido, o Papa Figo saísse de circulação ou o Empório Sertanejo começasse a fechar à meia-noite.
Fiquei triste, lembrei que roubei alguns livros, fruto da minha mendicância cultural. Não, não foi nada de roubo em série, que causasse estragos na contabilidade de Tarcisio Pereira. Alguns livros prediletos, quando a grana não dava sequer para um bom livro de poemas. Vai aqui, tardiamente, meu pedido de perdão. Foi mal, Tarcisio!
A Livraria Cultura está ali, imponente, com milhares de livros, CDs, DVDs, tudo bacana, organizado, exatamente como em São Paulo. É um padrão rigoroso de qualidade, mas acho que não sou muito adepto deste formato shopping center. Senti falta de algo que não sei o nome, talvez algum leitor possa me ajudar a explicar (se é que é necessário explicar tudo nesta vida).
Me deu uma vontade enorme de ir à 7 de Setembro e ver aquele imenso galpão repleto de gente, de comprar um livro e sair para tomar uma cerveja naqueles botecos da região, comer um daqueles espetinhos tenebrosos assados pela fumaça, fundamentais para a boa saúde, com o velho amigo Waldemir Leite, carne e unha comigo desde o primeiro dia da Católica, em 1988. Mas o tempo passou e as coisas mudaram. Fica somente a constatação: gosto mesmo de umas coisas fora de moda.
Foi na Livro 7 que me alfabetizei para a vida. Os tempos são outros, a vida segue. Não, esta não é uma crônica triste sobre coisas que tombaram. Acho que é uma pequena lembrança sentimental de um lugar que nos pertenceu, gerador de tantas epifanias. Quem nunca marcou um encontro "na entrada da Livro 7" que levante o dedo.
Se eu fosse vereador, tentaria tombar aquele galpão da Livro 7, onde reside nossa memória espiritual. Colocaria uma placa na entrada, dizendo "Aqui, o povo de Pernambuco aprendeu a amar os livros".
De qualquer forma, votos de vida longa à Livraria Cultura, onde irei gastar uns bons trocados.
A crônica de hoje é dedicada a Tarcisio Pereira.
* SAMARONE LIMA tem 39 anos, é jornalista e autor dos livros Zé (1998), Clamor (2003) e Estuário (2006).
Texto publicado em 11 de outubro de 2004. Agradecemos ao autor ter autorizado a reprodução.
Bairro do Recife ao longe, visto da Ilha de Santo Antônio. Pintura de Frans Post - século XVII
O QUE EU IRIA DIZER
A iniciativa de fazer este blogue surgiu de uma idéia prosaica. Seria melhor e soaria mais bonito se eu pudesse dizer que tinha algum projeto grandioso quando o iniciei. Não foi.
A força motriz foi a simples e pura necessidade de revirar as memórias do que vivi ou presenciei no mundo da literatura. Daí, o nome Vida Literária, que me veio à mente, espontaneamente, de um livro guardado cá comigo e cujo título nunca me saiu da cabeça, não sei bem porquê.
O livro chama-se Literatura e Vida Literária: polêmicas, diários & retratos, foi lançado em 1985, época da reabertura política do país, e a autora é Flora Süssekind. Fazia parte de uma coleção da Jorge Zahar Editor, intitulada Brasil, os Anos de Autoritarismo.
Provavelmente, o que fez surgir essa idéia, essa vontade, essa necessidade tenha sido saudade, gerada pelo fato de eu estar fora do meu habitat natural.
Se poetas são propensos a sentimentos extremados e a uma boa dose de melancolia, pernambucanos padecem irremediavelmente de saudade. Pernambucanos sempre parecem nostálgicos de alguma coisa, de um-não-sei-quê. Em uma conversa virtual ou real sobre qualquer assunto sempre surge uma brecha para o saudosismo.
Escrevendo o texto sobre a Livro 7, postado há uma semana atrás aqui, pesquisei na internet sobre as datas de início e encerramento das atividades da famosa e inesquecível livraria. Encontrei alguns depoimentos pessoais, em tom memorialista, sobre isso.
Os comentários que os leitores fizeram a essas postagens foi um capítulo à parte. Ler sobre a livraria foi motivo para as pessoas terem saudade de todas as coisas que existiam ao redor dali: do Beco da Fome, do cachorro quente da Cascatinha, do espetinho de carne vendido na rua, dos bares, da Livraria Síntese, que funcionava na Rua do Hospício, depois na Rua do Riachuelo. Teve gente que lembrou até da Fecin (parque de diversões que existia perto da minha casa) e do tobogã da Rua da Aurora.
Eu, que padeço do mesmo mal, ainda acrescentei, mentalmente, o DCE da UFPE, que ficava na já citada Rua do Hospício, quase na esquina com a Av. Conde da Boa Vista, cujo prédio foi derrubado e em que eu vivia sentado nos batentes da entrada, em uma época de movimento estudantil e inícios da poesia.
Será isso herança lusitana? Se for, o atavismo expressou-se de forma absolutamente inexpugnável. De minha parte, ao pensar em Pernambuco, sempre relembro Fernando Pessoa, talvez o poeta de que mais gosto entre uma legião preciosa e restrita de favoritos: ó, mar português, quanto do teu sal são lágrimas de Portugal.
Isto poderia ter sido dito de Pernambuco. Quanta luta e sofrimento houve para sermos quem somos! Como não lamentar o fuzilamento de Frei Caneca, que lutou pela liberdade, ou o incêndio de Olinda pelos holandeses?
Na verdade, eu iria escrever sobre gente cujos livros reencontrei hoje na estante, mas saiu este texto. Amanhã, falo do que pretendia ter dito, isso se eu não me perder novamente em outros devaneios.
Este é um dos meus poetas brasileiros preferidos. Considero-o um dos mais inventivos. Ele sempre cria imagens surpreendentes e trabalha. esteticamente, a linguagem de modo a apenas anunciar, nunca revelar por inteiro, o que permite ao leitor construir sua própria interpretação do texto. Isso é poesia!
Observem que o primeiro quarteto (estrofe de quatro versos) poderia ter sido escrito por qualquer outro escritor simbolista. Todavia, o resto do soneto é Pedro Kilkerry em toda a sua grandiosidade.
O MURO
Movendo os pés doirados, lentamente,
Horas brancas lá vão, de amor e rosas
As impalpáveis formas, no ar, cheirosas...
Sombras, sombras que são da alma doente!
E eu, magro, espio... e um muro, magro, em frente
Abrindo à tarde as órbitas musgosas
— Vazias? Menos do que misteriosas —
Pestaneja, estremece... O muro sente!
E que cheiro que sai dos nervos dele,
Embora o caio roído, cor de brasa,
E lhe doa talvez aquela pele!
Mas um prazer ao sofrimento casa...
Pois o ramo em que o vento à dor lhe impele
É onde a volúpia está de uma asa e outra asa...
Pedro Militão Kilkerry (Santo Antônio de Jesus - BA, 1885 - Salvador - BA, 1917). Filho de irlandês e baiana, formou-se em Direito. Pobre e boêmio, morreu tuberculoso, sem ter qualquer livro publicado.