Vida Literária por Marcilio Medeiros


ESTÁTUA DE DRUMMOND MUTILADA

 

A estátua de Carlos Drummond de Andrade, instalada na Praia de Copacabana, no Rio, bairro onde o poeta viveu, teve mais uma vez seus óculos arrancados ontem, apenas dois após serem reinstalados.

Já haviam furtado os óculos três outras vezes, a última no início deste ano.

Os técnicos da prefeitura supõem que a peça foi retirada, desta vez, com a ajuda de uma barra de ferro.

Pergunto-me se fazem isso por ignorância ou por simples vandalismo.



Escrito por marciliomedeiros às 23h05
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FLIPORTO 2008

 

 

Entre os dias 06 e 09 de novembro, acontecerá a Festa Literária Internacional de Porto de Galinhas - Fliporto 2008, com o tema Trilhas da Diáspora. Literatura em África e América Latina.

Segundo Antonio Campos, curador do evento, busca-se “atravessar o Atlântico, mas no sentido inverso ao dos navios negreiros que trouxeram ao nosso continente mais de 9 milhões de escravos, a partir dos primeiros anos do século XVI. Aos 120 anos da Abolição, celebrar o significado da África no Brasil e na América Latina, nós, afro-brasileiros, afro-latinos, no confronto aos códigos de discriminação e opressão. Não é geográfico esse ponto de retorno, uma vez que reside inquebrantável dentro de nossa memória étnica. Trata-se de um reencontro com o nosso chão psicológico, nossa paisagem mais nítida, a fisionomia que não conseguiram tornar invisível.” Vale lembrar que Porto de Galinhas foi um antigo porto de escravos.

Nesta edição, serão homenageados Wangari Maathai, do Quênia, primeira mulher africana negra a receber o Prêmio Nobel da Paz (2004), e Wole Soyinka, da Nigéria, primeiro africano negro a receber o Prêmio Nobel de Literatura (1986), Cruz e Sousa, Castro Alves, Jorge Amado, Solano Trindade e Josué de Castro.

A proposta é fazer uma programação descentralizada, com atividades literárias, infantis e sociais e gastronômicas, além de circuito turístico-cultural e exposições de artes plásticas e de fotografia.

A idéia é reunir cerca de 40 nomes oriundos de Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné Bissau, São Tomé e Príncipe e escritores brasileiros, hispano-americanos, portugueses e espanhóis, bem como estudiosos do pós-colonialismo e de temas inter-étnicos e culturais.

Entre os escritores confirmados, estão os angolanos José Eduardo Agualusa e Artur Pestana e o moçambicano Mia Couto.

 

Sobre o evento:

O quê:             Festa Literária Internacional de Porto de Galinhas - Fliporto 2008

Quando:           06 a 09 de novembro de 2008

Onde:              Hotel Armação – Praia de Porto de Galinhas – Município de Ipojuca - PE

Site:                 http://www.fliporto.net/abertura.html



Escrito por marciliomedeiros às 22h23
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Vida Literária

Foto: fonte desconhecida

 Cecília Meireles

 

CECÍLIA MEIRELES: ESCOLHA O SEU SONHO

  

A Cecília que me veio de início foi a cronista e isto deu-se por meio do livro Escolha o Seu Sonho, que eu havia resgatado por empréstimo em uma das inúmeras tardes de deambulação na seção circulante da Biblioteca Pública de Pernambuco, a casa de livros criada, em 1841, durante a administração do Conde da Boa Vista e inaugurada onze anos depois.

Os textos leves, despretensiosos, líricos, mas carregados da poesia ceciliana, que eu viria a encontrar logo depois, talvez tenham sido o caminho mais visível e sem obstáculos para o adolescente de então.

Na contracapa, estava a Cecília de olhos aquosos e translúcidos. Soube, numa ocaisão, que Cecília significa “a cega, mas que tem belíssimos olhos”, e, nela, isso era absolutamente verdadeiro.

Além do encantamento imediato com a escritora, aquele livro me reservou muitas surpresas. Estava repleto de referências literárias que eu passei a investigar e conhecer, como um neófito que passa a partilhar os saberes de sociedades secretas. Essas ligações externas pareciam sugerir um jogo do tipo una os pontos para ver a figura e me remeteram a novas referências que formavam, aos poucos, uma rede que parecia não ter fim. E não tinha!

Em O Divino Bachô, ela me revelou didaticamente o poeta japonês e o haikai:

“Velho tanque.

Uma rã mergulha.

Barulho da água.”

 

Em outro escrito, tratava de um grupo especializado em dizer publicamente a poesia de Fernando Pessoa, autor que nunca mais deixaria de fazer parte de minha vida.

Por este livro e por esta autora, cheguei ao mundo dos sebos. Isto ocorreu na Praça do Sebo, ilha encravada entre prédios do Bairro de Santo Antonio, novo território por mim conquistado para encontrar e viver a literatura. De lá, saí com meu prêmio: a aquisição da edição da Record, de 1968, de Escolha o Seu Sonho. Não é que o livro estava ali... Foi um sinal de bom augúrio? Quem sabe, Cecília.

Na seqüência, comprei as Ilusões do Mundo, em que Cecília falava de desamparo e solidão, a propósito de Um cão, apenas.

Ela ainda me trouxe Rabindranath Tagore, o poeta indiano, amigo de Mahatma Gandhi.

O desdobramento natural era encontrar a Cecília poeta. De pronto, chamou-me a atenção a sensibilidade aguda e doída, e a musicalidade e plasticidade dos versos, presentes, de modo ostensivo, no poema Madrugada no Campo:

“Com que doçura esta brisa penteia
a verde seda fina do arrozal -
Nem cílios, nem pluma, nem lume de lânguida

lua, nem o suspiro do cristal.

Com que doçura a transparente aurora
tece na fina seda do arrozal
aéreos desenhos de orvalho! Nem lágrima,

nem pérola, nem íris de cristal...

Com que doçura as borboletas brancas
prendem os fios verdes do arrozal
com seus leves laços! Nem dedos, nem pétalas,
nem frio aroma de anis em cristal

Com que doçura o pássaro imprevisto
de longe tomba no verde arrozal!
- Caído céu, flor azul, estrela última:
súbito sussurro e eco de cristal.

 

Além de indicações cromáticas, visuais e auditivas, as metáforas criam imagens capazes de gerar sensações táteis, olfativas, gustativas.

Na minha avidez de posse do objeto de desejo, comprei e li dela tudo que encontrei pelo caminho. Foram se enfileirando nas prateleiras As Poesias Completas, numa edição da Civilização Brasileira e da qual me falta apenas o volume 5; as edições póstumas de poesia; os livros infantis, em prosa e verso.

 

Foto: arquivo pessoal

Procurando Cecília... Biblioteca Nacional, Rio, 1986 (Marcilio Medeiros)

 

A Cecília ilustradora e folclorista vi por meio de Batuque, Samba e Macumba, num volume alto de páginas grossas. A tradutora, em A Canção de Amor e Morte do Porta-estardante Cristóvão Rilke, de Rilke, e em Orlando, de Virginia Woolf, que vi, depois, no teatro com Fernanda Torres. Faltava a Cecília dramaturga. Afinal, era necessário conhecer tudo. Que coisa! Isto aconteceu na Biblioteca Nacional, em minha primeira viagem ao Rio de Janeiro.

Cecília Meireles encheu de influências o primeiro estágio da minha vida de poeta. Como todo início é marcante na formação e no desenvolvimento de um estilo próprio, as reverberações desse diálogo estão presentes até hoje.

Na pessoa que eu era, lamentei ter nascido depois que ela - que me deu tanto - se fora e não ter sabido de sua presença material viva no mundo.



Categoria: Vida Literária
Escrito por marciliomedeiros às 16h50
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CECÍLIA MEIRELES

 

UM CÃO, APENAS

 

Subidos, de ânimo leve e descansado passo, os quarenta degraus do jardim - plantas em flor, de cada lado; borboletas incertas; salpicos de luz no granito -, eis-me no patamar. E a meus pés, no áspero capacho de coco, à frescura da cal do pórtico, um cãozinho triste interrompe o seu sono, levanta a cabeça e fita-me. É um triste cãozinho doente, com todo o corpo ferido; gastas, as mechas brancas do pêlo; o olhar dorido e profundo, com esse lustro de lágrima que há nos olhos das pessoas muito idosas. Com um grande esforço, acaba de levantar-se. Eu não lhe digo nada; não faço nenhum gesto. Envergonha-me haver interrompido o seu sono. Se ele estava feliz ali, eu não devia ter chegado. Já que lhe faltavam tantas coisas, que ao menos dormisse: também os animais devem esquecer, enquanto dormem…

Ele, porém, levantava-se e olhava-me. Levantava-se com a dificuldade dos enfermos graves: acomodando as patas da frente, o resto do corpo, sempre com os olhos em mim, como à espera de uma palavra ou de um gesto. Mas eu não o queria vexar nem oprimir. Gostaria de ocupar-me dele: chamar alguém, pedir-lhe que o examinasse, que receitasse, encaminhá-lo para um tratamento… Mas tudo é longe, meu Deus, tudo é tão longe. E era preciso passar. E ele estava na minha frente, inábil, como envergonhado de se achar tão sujo e doente, com o envelhecido olhar numa espécie de súplica.

Até o fim da vida guardarei seu olhar no meu coração. Até o fim da vida sentirei esta humana infelicidade de nem sempre poder socorrer, neste complexo mundo dos homens.

Então, o triste cãozinho reuniu todas as suas forças, atravessou o patamar, sem nenhuma dúvida sobre o caminho, como se fosse um visitante habitual, e começou a descer as escadas e as suas rampas, com as plantas em flor de cada lado, as borboletas incertas, salpicos de luz no granito, até o limiar da entrada. Passou por entre as grades do portão, prosseguiu para o lado esquerdo, desapareceu.

Ele ia descendo como um velhinho andrajoso, esfarrapado, de cabeça baixa, sem firmeza e sem destino. Era, no entanto, uma forma de vida. Uma criatura deste mundo de criaturas inumeráveis. Esteve ao meu alcance; talvez tivesse fome e sede: e eu nada fiz por ele; amei-o, apenas, com uma caridade inútil, sem qualquer expressão concreta. Deixei-o partir, assim, humilhado, e tão digno, no entanto: como alguém que respeitosamente pede desculpas de ter ocupado um lugar que não era seu.

Depois pensei que nós todos somos, um dia, esse cãozinho triste, à sombra de uma porta. E há o dono da casa, e a escada que descemos, e a dignidade final da solidão.



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Escrito por marciliomedeiros às 16h41
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O MUNDO QUE ME CERCA

 

Djanira Silva

 

Não sou borboleta, nem abelha, e, menos ainda lagarta mas gosto de visitar, de vez em quando, o jardim. Foi o que fiz ontem pela manhã. Não para colher o pólen das plantas, não para enfeitar com minhas cores o jardim nem para me alimentar das folhas. Fui lá para aprender a vida.

Embora os vegetais sejam autônomos para retirar da terra a alimentação de que necessitam, alguns, principalmente as flores, carecem de cuidados especiais. As roseiras gostam de sol e muita água. As begônias de sombra e pouca umidade. O calachoe é um mistério. Já li em livros de jardinagem que não se deve aguá-los todos os dias nem molhar as folhas. Segui à risca as orientações. Algumas secaram, e de flores nem sinal. Fiquei surpresa quando, no inverno ficaram lindas, floridas. Mesmo assim não deixo de acreditar em informações. Tenho uma amiga, botânica, que entende da ciência das plantas. Alertou-me a respeito da ixoria, disse-me que as vermelhas têm um poder arrasador sobre as outras cores. Foi só então que me dei contas de que havia plantado uma branca perto de uma vermelha e ela morreu. Depois foi a vez de uma cor-de-rosa que teve o mesmo destino. Com a amarela aconteceu a mesma coisa. Acredito que na vida também é assim. Há pessoas com energias mais fortes que anulam as mais fracas. Será que entre as plantas também existe inveja? Quem sabe? Que elas brigam pelo sol, eu sei que brigam. Já tive um mamoeiro que de tanto se esticar para alcançar o sol que ficava encoberto por um abacateiro, terminou morrendo magro e seco em cima do muro.

A cantoneira ao redor do pé de pitanga está uma beleza. Plantei ali uma florezinhas dengosas chamadas onze horas. O relógio delas é um pouco diferente do meu. Abrem, antes das dez. Mal dá meio-dia, voltam a dormir feito gente que dorme depois do almoço. As flores possuem seus mistérios e, graças a Deus, ninguém consegue mudá-los.

Na entrada junto à parede tenho um pé de bonina. É outra plantinha dengosa, diferente. Enquanto as outras dormem ao meio-dia ela abre às três da tarde. Cheirosa que é uma beleza. Um perfume tão leve quanto suas pétalas macias. À noite, quando não chove ainda continua acordada. Deve amanhecer de ressaca.

As flores dos campos sobrevivem às intempéries. Resistem a tudo. Já as do jardim quando abandonadas à própria sorte, murcham, emurchecem e morrem. Há uma grande diferença entre murchar e emurchecer. As que emurchecem, quando recebem água, adubo e carinho, logo se recuperam. As que murcham não tem água que dê jeito.

Gosto de lidar com a terra, de plantar e replantar. Reservei um lugarzinho na sombra onde instalei uma espécie de UTI para onde vão as recém-plantadas e algumas ameaçadas de morte. Faço tudo o que posso. Desvelo-me em cuidados e carinhos. Fico triste quando tenho de substituir algumas. Não jogo nada fora, mesmo que seja um pequenino galho. Salvo-o dentro de outros jarros não importando se lá já exista outro inquilino. Geralmente se dão bem. É claro. Nem gente, nem bicho, nem planta gostam de viver sozinhos. Dificilmente encontramos uma palma de bananas ímpar. Elas nascem aos pares. A banana maçã tem até gêmeos. As pitangas e acerolas nascem em cachos. Nunca se viu uma uva sozinha pendurada num galho de parreira a não ser que a parreira esteja doente. É comum encontrarmos várias frutas com mais de uma semente ou caroço, como queiram. Os mamoeiros não dão frutos isolados. Os abacateiros, as mangueiras, dão cachos múltiplos. Gosto de observar os caprichos da natureza. Alguns, verdadeiramente me intrigam, como no caso de uma batata de lírio, de cor levemente salmão, que plantei e, para meu espanto, me presenteou com uma flor amarela. Só então me dei contas de que deveria ser influência da terra como ocorre com as hortênsias. Quando o solo é alcalino as flores nascem cor-de-rosa e dependendo da intensidade podem nascer até brancas. Em solo ácido nascerão azuis. Talvez aí esteja a resposta para a troca de cor do meu pé de lírio. Esta idiossincrasia não é privilégio das hortênsias. Tive uma amiga que quando queria acentuar o tom azul violeta da sua plantação de hortênsias, colocava na água pedaços de lá de aço. Com a água enferrujada regava as plantas. O resultado era excelente.

Não só observando as plantas aprendo a vida. O comportamento dos animais me fascina. Crio uma cadelinha que, todos os dias, logo que abro a porta, vai para o quintal tomar banho de sol. Se demoro a abrir a porta da cozinha ela sai por dentro de casa em busca de uma réstia de sol sob as janelas e ali se deita. No quintal, se exercita perseguindo a sombra das borboletas, ou das folhas que caem. Qual de nós, com toda a racionalidade, cumpre um ritual assim, tão benéfico? Sequer nos lembramos de nos espreguiçar pela manhã. É, sem dúvida alguma uma forma de alongamento.

É necessário que os programas de rádio e televisão repitam, todos os dias, as mesmas recomendações – o homem precisa caminhar, o corpo é uma máquina que precisa de movimentos, que precisa de um bom combustível para ter uma vida longa e útil. No entanto, nos alimentamos de forma errada. Empurramos para dentro da nossa pobre máquina qualquer bagulho bem temperado e cheiroso. Os animais têm limites para se alimentarem. Quando doentes não comem mesmo que lhes ofereçamos a alimentação de que mais gostem. As pessoas, não, mesmo doentes teimam em comer o que não podem. O diabético come doce escondido pensa enganar a morte. Coisas de gente, coisas de racionais.



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Escrito por marciliomedeiros às 00h12
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JUAREIZ CORREYA

Juareiz Correia

UIA DE POESIA: - Juareiz, inicialmente, vamos para a pergunta de praxe : como foi a descoberta pela poesia ?


JUAREIZ CORREYA: - Descobri a poesia ainda no curso ginasial, em Palmares (PE), onde nasci. De forma desordenada e aleatória, como ocorre com todo autodidata. Sou um autodidata, em matéria de literatura. Aliás, tenho apenas esse curso ginasial concluído em 1967. O que quer dizer que sou um autodidata na vida, de verdade, literária e profissionalmente. Duas pessoas foram fundamentais nessa minha descoberta : uma primeira namorada, Hilda, de 22 anos, quando eu tinha 16, que era uma leitora de bons poetas modernos brasileiros, muito bem informada, e que me incentivou com carinho de amiga e mulher, dizendo acreditar no meu futuro, quando eu ainda não era nada e nem pensava que poderia ser alguém na vida; e a minha mãe espiritual, Jessiva Sabino de Oliveira, então diretora da Biblioteca Pública dos Palmares, onde eu me refugiava, caladão, tímido, lendo de cambulhada (e sem indicação de ninguém, nem mesmo da diretora Jessiva), os livros que ia descobrindo. Até o meu primeiro alumbramento com a poesia : Manuel Bandeira. Daí então o vírus me envenenou...


GUIA DE POESIA: - Você começou a publicar seus poemas muito cedo. Transitou por formas diversas, passou por várias experimentações até apresentar uma poesia viva, assumindo desde sempre a profissão de poeta. Conta, então, como foi a experiência de publicar cada um dos seus livros atuando corpo a corpo com o leitor na rua, nas escolas, por aí, levando o "Americanto Amar América" e seus outros livros...


JUAREIZ CORREYA: - Meu primeiro poema publicado se intitulava "Poema vago olhando a cidade." Foi impresso no primeiro e único número do jornal O OLHO, que eu e um grupo de amigos publicamos, em Palmares, no começo do ano de 1970. Sem saber, eu já estava definindo um caminho para a poesia que criaria nos anos seguintes : uma poesia visceralmente urbana, sem nenhum vínculo com o mundo rural onde eu nasci. O jornal, com a publicação desse poema, anunciava um pretendido livro de estréia intitulado POEMAS SEM CORPO (o corpo, o corporal, a carne, a amorosidade carnal humana, outra temática fundamental da minha poesia). Saí de Palmares, fui para São Paulo, onde, em 3 meses, fui incluído em uma antologia da editora paulistana ILA Palma (POETAS DA CIDADE - São Paulo - 2 ), publicada em 1970. Conheci então o primeiro editor na minha vida - o ítalo-brasileiro Renzo Mazzone -, uma figura mitológica para mim e que influenciou decisivamente o meu futuro papel de editor. São Paulo começou a mexer e transformar a minha poesia e publiquei alguns poemas em duas antologias do Renzo Mazzone, um fato que me incentivou para publicar o meu primeiro livro. Nessas três experiências editoriais, a minha poesia era anti-discursiva, dura, meio neo-concreta, expositiva, cerebral. Depois, em contato com a poesia da geração beat norte-americana, lendo uma antologia publicada no Brasil pela Editora Brasiliense, minha cabeça se abriu como uma avenida rasgando o coração da cidade, minha voz se alteou e me danei a escrever uma poesia que era mais do que pura libertação, integrando o meu sangue à palavra, incendiando o meu corpo com o amor que só a poesia é capaz de criar e transmitir : o amor de um homem pela terra inteira. Foi a hora da gestação do meu poema "Americanto Amar América", que virou livro depois, história em quadrinhos, será um dia canção, peça de teatro, cinema talvez... O "Americanto" não é uma realização minha. É o que me realiza.


Acho que poeta não é profissão. É destino. Escritor, jornalista, editor, esses podem ser "profissionais" e os seus registros cabem em carteira. Poeta, não. É uma condenação. Heber Fonseca, jornalista e escritor pernambucano, me entrevistou para o Jornal do Commercio, do Recife, quando eu estava circulando por algumas cidades com o meu primeiro livro publicado em São Paulo, sem título, e tascou na reportagem este título bastante revelador : "Poeta vende livro mas não vende poesia". É isto. Poesia não é uma mercadoria, o livro é que é. Por isto, um livro de poesia pode até ser bonitinho, como produto bem acabado, feito para vender. Mas a beleza da poesia é outra. E ela pode até desagradar, mesmo bem embalada para vender. Poesia pode até dar alegria ao poeta. Mas não é sorte, é desgraça mesmo. Um poeta não vive de poesia. Vive para a poesia. E só é poeta mesmo (parafraseando um grande pintor mexicano, quando aconselhava Frida Khalo) se ele se dedicar a vida inteira a ela e for capaz de morrer pela sua poesia.


Com o meu primeiro livro publicado em São Paulo, numa gloriosa edição do autor, no início da década de 1970, em 1971, passei a visitar colégios e faculdades, sistematicamente, apresentando o meu trabalho em venda direta ao meu possível leitor. As nossas poucas livrarias não tinham, e não têm, até hoje, o menor interesse em vender livro de poesia de autor iniciante, desconhecido, jovem, e chegam até a discriminar livros produzidos pelos autores e por editoras locais. E, miseravelmente, as livrarias, que seriam o espaço natural para o escoamento de toda produção editorial, não se multiplicam, diminuem e desaparecem. Isto é retrocesso cultural mesmo e se a história tiver de ser contada, fede, fede muito. Depois, somos uma nação de muitos analfabetismos, esse mal é grande e os escritores, em geral, não são levados em conta sequer para servir de paliativo diante do grande atraso cultural que, apesar de todo o progresso, avança. É um câncer educacional e social sem tamanho. Digo melhor : do tamanho do Brasil. Por que os escritores não são chamados para participar diretamente do processo educacional brasileiro ? Por que ainda existe esse fosso imenso entre o processo educacional e o processo cultural?


Publiquei o meu primeiro livro, uns livretos, o livro "Americanto Amar América", em 1982, já com a assumida edição da Nordestal Editora, que fundei no Recife, e sempre procurei diretamente o meu possível leitor nas escolas e nas faculdades, inclusive nas cidades do interior. Na medida do possível, com a apresentação dos meus trabalhos, procurava sempre oferecer alguma informação sobre a produção poética e literária local, contextualizando melhor a minha poesia no dia-a-dia da literatura pernambucana, nordestina, brasileira. Qualquer escritor tem condição de fazer isso, e esse modelo vale mais do que as dezenas de lições de literatura ou as práticas de iniciação literária que abundam nos colégios e nas faculdades da vida. Literatura é vida verdadeira. Os cursos de Letras, por exemplo, vivem dissociados da contemporaneidade, que mais parece, para alguns professores, um incômodo. Para os estudantes, com certeza, será um inextinguível sopro de vida.

 

GUIA DE POESIA: - Você também publicou em prosa, a exemplo de "A CLARA HISTÓRIA DE PRETA, O FUTURO PRESIDENTE DO BRASIL". Fale dessa sua veia e da publicação.

JUAREIZ CORREYA: - A veia da minha prosa ainda está cheia, bastante vigorosa, sem qualquer impedimento cardíaco. Têm pouca quilometragem de uso os caminhos da minha ficção. Não sei, com a minha ficção, se injeto sangue novo na ficção pernambucana e nordestina, mas não é isso que me interessa. Escrevo os meus contos há algum tempo, tenho poucos textos publicados e até hoje não publiquei um só livro de contos. A publicação da novela - é uma novela, uma "ficção política de verdade", como eu sub-intitulo A CLARA HISTÓRIA DE PRETA... - aconteceu mais por força do incentivo do poeta e editor Jaci Bezerra, à frente da Edições Pirata, em 1979, no Recife. Não digo que a minha produção em prosa é pequena - tenho três livros de contos prontos : A BIOGRAFIA DE DEUS, PEQUENAS HISTÓRIAS PEQUENAS e HISTÓRIAS DE ATLÂNTICA -, mas os projetos editoriais com a minha prosa são sempre adiados e superados pelos projetos com a minha poesia. Falta estímulo, faltam os jornais, as revistas, ou mesmo falta a minha fé no que tenho escrito. Aliás, com a minha prosa acontece uma completa inversão temática nos meus escritos : o mundo criado/recriado é o rural, ou um pouco "rurbano", como diria Gilberto Freyre, enquanto a minha poesia é inteiramente urbana. E isso não é intencional, logicamente cerebral. Como a poesia, é. E se como poeta sou ainda um ilustre desconhecido (o escritor brasileiro, nordestino, sobretudo, luta dos os dias para ser ao menos conhecido... não dá para imaginar mesmo que será "reconhecido" um dia...), como contista e novelista estou ainda engatinhando... No ano que passou, por exemplo, pude me enxergar melhor nesse papel : fui publicado na grande antologia organizada por Antonio Campos e Cyl Gallindo - PANORAMA DO CONTO EM PERNAMBUCO -, lançada, em setembro, na III FLIPORTO (Porto de Galinhas, Ipojuca, PE), figurando entre ficcionistas pernambucanos de projeção nacional e até internacional, a exemplo de Amílcar Dória Matos, Augusto Ferraz, Clarice Lispector, Cristovam Buarque, Eduardo Lucena, Everaldo Moreira Veras, Fernando Monteiro, Gastão de Holanda, Gilberto Freyre, Gilvan Lemos, Hermilo Borba Filho, José Condé, Lucilo Varejão, Luís Jardim, Luiz Arraes, Luzilá Gonçalves Ferreira, Maria de Lourdes Hortas, Mário Sette, Maurício Melo Junior, Mauro Mota, Maximiano Campos, Medeiros e Albuquerque, Milton Lins, Múcio Leão, Nelson Rodrigues, Olímpio Bonald Neto, Osman Lins, Pelópidas Soares, Raimundo Carrero, Rubem Rocha Filho, Sérgio Moacir de Albuquerque, Vanja Carneiro Campos e Zuleide Duarte. Citei 33 nomes apenas. A antologia apresenta 115 contistas. Da nossa Palmares, "terra dos poetas", apenas 3 nomes : Ascenso Ferreira, Hermilo Borba Filho e eu. Faltou incluir, de lá, no meu entender, os nomes de Jayme Griz e de Afonso Paulins (este, ainda inédito em livro), contistas prontos, bem acabados, ou melhor, bem criados e bons criadores. Mas nenhuma antologia esgota o assunto...

 

Visitem Juareiz Correya em O Blog dos Blogs:

http://www.rockitazinha.blog-se.com.br/blog/conteudo/home.asp?idBlog=16011



Escrito por marciliomedeiros às 23h25
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POESIA VIVA DO RECIFE

 

Poesia Viva do Recife: nova edição da antologia homenageia a cidade em agosto

 

A antologia POESIA VIVA DO RECIFE, lançada pela CEPE - Companhia Editora de Pernambuco, em 1996, com a participação de 100 poetas, será relançada este ano, ampliada com a presença de 150 poetas pernambucanos, em homenagem à cidade, no 6º. Festival Recifense de Literatura, que ocorrerá em agosto.

Na primeira edição, realizada por iniciativa do jornalista Evaldo Costa, diretor-presidente da CEPE (hoje secretário de Imprensa do Estado), o então Vice-Governador Jorge Gomes (hoje Secretário de Saúde do Estado) assinava a primeira orelha e o então Secretário da Fazenda Eduardo Campos (hoje Governador do Estado) assinava a segunda orelha, ressaltando que “feliz é a cidade que, como o Recife, pode orgulhar-se de ter na poesia uma parte essencial de sua substância vital.” 

Essa primeira edição contava com a participação destes 15 poetas, ausentes da nova edição, pelo fato de terem falecido:  Alberto da Cunha Melo, Arnaldo Tobias, Audálio Alves, Celina de Holanda, Edmir Domingues, Estephânia Nogueira, Francisco Espinhara, Geraldino Brasil, João Cabral de Melo Neto, Mário Souto Maior, Nerivaldo Xavier, Paulo Cardoso, Potyguar Matos, Sílvio Roberto de Oliveira  e Waldemar Lopes.

O poeta e editor Juareiz Correya, organizador da antologia e idealizador da Coleção Poesia da Cidade, projeto da Nordestal Editora, que já publicou também a POESIA VIVA DE NATAL, em 1999,  e tem prontas para publicação as antologias POESIA VIVA DE SÃO PAULO e POESIA VIVA DE MACEIÓ, explica que a nova edição da POESIA VIVA DO RECIFE, “embora desfalcada com a ausência desses nomes importantes da poesia pernambucana, hoje eternizados, apresenta, na medida do possível, uma seleção de nomes que, nas duas últimas décadas e nesta década, têm renovado a expressão poética em Pernambuco, sobretudo atuando na vida cultural recifense.”

A segunda edição da antologia, revista e ampliada, além de preservar 85 poetas/poemas da primeira edição, publica textos, criados sobre o Recife, de alguns poetas já maduros e destes novos e novíssimos poetas que “vivem, amam e eternizam a cidade”: Adriana Perrucci, Aluísio Santos, Antonio Botelho, Ary Sergas Santos, Arnaud Mattoso, Carlos Cardoso, Carlos Maia, Cida Pedrosa, Cuinas Cervantes, Débora Brennand, Davino Sena, Delmo Montenegro, Eduardo Diógenes, Edvaldo Bronzeado, Esman Dias, Everardo Norões, Fábio Andrade, Fernanda Jardim, Fernando Araújo, Fernando Chile, Gustavo Krause, Ivan Maia, Ivan Marinho Filho, Joca de Oliveira, Jomard Muniz de Britto, José Almino de Alencar, José Terra, Josilene Corrêa, Lara, Lenilde Freitas, Liana Mesquita, Luciano Nunes, Luiz Carlos Dias, Malungo, Marcílio Medeiros, Marcos d’Morais, Mariana Arraes, Miró, Nivaldo Lemos, Odmar Braga, Paulo Jofilson, Pedro Américo de Farias, Raimundo de Moraes, Robson Sampaio, Rogério Generoso, Romero Amorim, Ronildo Maia Leite, Samuca Santos, Sérgio Augusto da Silveira, Sérgio Leandro, Silvana Menezes, Sílvio Hansen, Tarcísio Regueira, Wilson Vieira e Valmir Jordão, entre outros.

Fonte: http://www.igpeabirus.com.br/redes/form/post?pub_id=12278

 

JUAREIZ CORREYA por ele mesmo

 

Nasci em Palmares, região Mata Sul do Estado de Pernambuco. Escritor e editor. Dirijo,bno Recife (PE), a Panamerica Nordestal Editora e Produções Culturais. Idealizador do projeto e ex-presidente da Fundação Casa da Cultura Hermilo Borba Filho, da Prefeitura dos Palmares (1997/2004). Coordenei, no Recife, de 1980 a 1983, a publicação da Revista POESIA (10 números). Vários livros de poesia publicados e outros livros de poesia e contos inéditos. Organizei e publiquei as antologias poéticas POETAS DOS PALMARES (1973/1987/2002) e POESIA VIVA DO RECIFE (1996). Coordeno a Coleção Poesia da Cidade, da Panamerica Nordestal Editora. Poemas publicados em antologias paulistanas, pernambucanas e em revistas e jornais brasileiros.

Fonte: http://letras-leituras.blogspot.com/



Escrito por marciliomedeiros às 23h55
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Congresso de Poetas

1º CONGRESSO MUNDIAL POETAS DEL MUNDO

 

 

Previsto para acontecer no período de 24 a 31 de maio próximo, na Cidade do Natal – RN, o 1º Congresso Mundial Poetas del Mundo foi adiado para 19 a 24 de agosto, devido à decretação de estado de calamidade pública no estado, em função das constantes e fortes chuvas que deixaram milhares de desabrigados e geraram graves problemas de saúde na população.

O evento está sendo organizado pela Sociedade dos Poetas Vivos e Afins – SPVA e pela representação local do movimento Poetas del Mundo. A proposta do Poetas del Mundo é unir poetas de todos os cantos do planeta em torno da arte e da promoção da paz e da vida.

Não tive oportunidade de manter, ainda, contato direto com representantes do Poetas del Mundo, contudo considero extremamente relevante a idéia de estabelecimento de rede e de diálogo entre escritores e produtores culturais. Para saber mais sobre Poetas del Mundo, acessem: http://www.poetasdelmundo.com/default.asp. Os textos estão disponíveis em português, espanhol, francês e inglês.

 

Sobre o evento:

O quê: 1º Congresso Mundial Poetas del Mundo

Quando: 19 a 24 de agosto de 2008

Onde:  Centro de Convenções do Natal – RN

Site: http://www.congressopoetasdelmundo.com/menu.htm



Escrito por marciliomedeiros às 16h51
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VICTOR HUGO

EXCERTO

O olho do homem é feito de modo que se lhe vê por ele a virtude. A nossa pupila diz que quantidade de homem há dentro. Afirmamo-nos pela luz que fica debaixo da sobrancelha. As pequenas consciências picam o olho, as grandes lançam raios. Se não há nada que brilhe debaixo da pálpebra, é que nada há que pense no cérebro, é que nada há que ame no coração. Quem ama quer, e aquele que quer relampeja e cintila. A resolução enche os olhos de fogo; admirável fogo que se compõe da combustão dos pensamentos tímidos. Os teimosos são os sublimes. Quem é apenas bravo tem um assomo, quem é apenas valente tem só um temperamento, quem é apenas corajoso tem só uma virtude; o obstinado na verdade tem a grandeza. Quase todo o segredo dos grandes corações está nesta palavra: - Perseverança. A perseverança está para a coragem como a roda para a alavanca; é a renovação perpétua do ponto de apoio. Esteja na terra ou no céu o alvo da vontade, a questão é ir a esse alvo. Insensata é a cruz; vem daí a sua glória. Não deixar discutir a consciência, nem desarmar a vontade, é assim que se obtém o sofrimento e o triunfo. Na ordem dos fatos morais o cair não inclui o parar. Da queda sai a ascenção. Os medíocres deixam-se perder pelo obstáculo especioso; não assim os fortes. Perecer é o talvez dos fortes, conquistar é a certeza deles. O desdém das objeções razoáveis cria a sublime vitória vencida que se chama o martírio.

Do livro Os Trabalhores do Mar. 



Escrito por marciliomedeiros às 15h15
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INDEPENDENTES, MARGINAIS, ALTERNATIVOS II

INDEPENDENTES, MARGINAIS, ALTERNATIVOS – 2ª Parte

 

Em 1984, editamos, Flávio Chaves, Sidney Rocha e eu, o Jornal Prólogo. Neste ano, lancei, em edição própria, meu primeiro livro, na Livro 7. E houve declamação de poesia, claro! Lembro-me, especialmente, da perfomance cheia de verve e irreverência de Xico Sá.

No mês de abril, ocorreu, no Gabinete Português de Leitura, América Erótica e Virgem, uma exposição de posters-poemas, da qual não participei, mas estive na abertura.

Em uma conversa etílico-literária, das muitas que havia por aquela época, formada por Eduardo Martins, Cida Pedrosa, Chico Espinhara, talvez Fátima Ferreira e Hector Pellizzi, ouvíamos Eduardo falar, com empolgação e orgulho, de uma crítica que César Leal sobre a poesia dele ou do grupo, não recordo bem. A opinião de César e o espaço que ele abriu eram muitos importantes naquele momento. A propósito, ele foi meu professor.  

No Festival de Inverno da UNICAP, realizamos o espetáculo Canção do Momento, com poemas e músicas nossas, que depois teve mais algumas apresentações na Sala Clenio Wanderley, da Casa da Cultura. Conheci muita gente naqueles saudosos festivais e de onde havia saído, no ano anterior, a I Caminhada Poética do Recife, com um grande público percorrendo as ruas da cidade, portando velas e dizendo poesia em cima de um caminhão de som. Impossível esquecer Dione Barreto falando os versos: eu sou mulher, antiga besta de um aborto mal feito... A Caminhada contou com o apoio da UNICAP e da FUNDARPE, no entanto tinha muito do espírito daquele jeito de viver e divulgar poesia dos independentes. Em 1985, acontece a I Chuva Poética, com palco montado na Praia de Boa Viagem e poemas sendo arremessados, pelos ares, de um helicóptero. Audálio Alves publica matéria, em sua coluna do Jornal de Letras, do Rio de Janeiro, falando da nova geração de poetas pernambucanos e cita como exemplo um poema meu.

Por esse tempo, houve a primeira eleição da União Brasileira de Escritores – Secção Pernambuco - UBE-PE. Lembro-me de uma conversa na Praça do Sebo (Rua da Roda) sobre as articulações para formação da chapa única e Manuzé dizendo: acho que você podia estar nela... ao que eu contrapus: não sou filiado ainda e conheço pouca gente. A intenção era aglutinar nomes e tendências variadas e, em certa medida, isso foi obtido com uma chapa mista de novos e velhos escritores, com o perdão dos rótulos.

Entrei na UBE-PE em 1986, com proposta apresentada por Dione Barreto, que viria a ocupar, depois, a presidência da entidade.

O fim forçado das colunas Commercio Cultural, de Alberto Cunha Melo, no Jornal do Commercio, e Poliedro, de Paulo Azevedo Chaves, no Diário de Pernambuco, foi um duro golpe para nós.

Em dezembro de 1986, é organizada uma homenagem a Mauro Mota, que não havia muito que falecera, e coube a mim dizer o poema Pastoral.

Já na universidade, fiz mais um jornal, chamado A Boca, com o pessoal do Diretório Acadêmico. Em 1986-87, quis dar prosseguimento a edição de tablóides literários com Mytho e Lúbrico, que nunca saíram. Este último era um projeto com o escritor e jornalista Raimundo de Moraes, logomarca e arte de Manuzé e que recebeu apoio do jornalista Paulo Azevedo Chaves, que, aliás, foi o primeiro a publicar poesia minha na grande imprensa. O projeto estava todo pronto, mas desistimos em função da falta de patrocínio.

Na eleição da UBE-PE para o biênio 1987-88, há um cisma entre os independentes, parte apoiando Nagib Jorge Neto e outra, Marcus Accioly. Tinha amigos nos dois grupos. Como queria participar da vida da entidade e fui contatado pelo segundo grupo, juntei-me a ele.

Penso que já fazia algum tempo que não éramos mais tão independentes quanto julgávamos ou queríamos crer.

Nagib foi eleito presidente. Como minha intenção era colaborar e não havia antagonismo intrínseco com as pessoas do grupo, dirigi, para a UBE-PE, o espetáculo que homenageou Carlos Pena Filho naquele ano e que teve lugar no MAMAM.

Reunimos escritores e artistas plásticos para uma homenagem ao Movimento Dadaísta, com um espetáculo completamente anárquico, à frente Paulo Brusky. Não lembro bem o ano disso.

Em 1988, a UBE-PE organiza o I Encontro de Escritores do Nordeste, no Cineteatro da Fundação Joaquim Nabuco, do Derby. Em 1989,  foi realizada a exposição A Fotografia e seu Poema, com fotos de Flavio Azevedo. Os nomes dos poetas no cartaz do evento foram dispostos de forma que formasse um soneto:

 

Arnaldo Tobias, Carlos Laerte, Carlos Senna,

Celina de Holanda, Ceci Alencar,

Cida Pedrosa, Domingos Alexandre,

Eduardo Martins e Everardo Veras.

 

Geraldino Brasil, Héctor Pellizzi,

Iran Gama, Jailson Marroquim, José Torres,

Juhareiz Correya, Lenice Gomes,

Manoel Constantino e Marcilio Medeiros.

 

Marconi Notaro, Maria da Paz Ribeiro Dantas,

Paulo Chaves, Pencas, Maria de Lourdes Hortas,

Raimundo de Moraes e Samuca Santos.

 

Selma Vasconcelos, Taiz Fernandes, Tarcisio Laureano,

Vernaide Wanderley, Vital Correa de Araújo,

Wilson Freire e Wilson Vilar.

 

Para mim, esses foram os momentos finais daquela fase.

Em 2000, Francisco Espinhara lançou o livro Movimento de Escritores Independentes de Pernambuco 1980/1988, que documentou muito daquele período em Pernambuco, com relato, fotos e pequena coletânea. Nunca vi o livro, mas fiquei sabendo que estou lá em foto e poema dos primeiros tempos - poema, é bem provável, de qualidade bastante sofrível.

No Festival Recifense de Poesia de 2006, encontrei Chico e perguntei se ainda havia algum exemplar que eu pudesse adquirir. Ele informou que não. Trouxe para casa Sangue Ruim, um de seus últimos livros. Foi a última vez que o vi. Hoje, ele deve estar conversando com Augusto do Anjos ou Baudelaire.



Escrito por marciliomedeiros às 15h01
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INDEPENDENTES, MARGINAIS, ALTERNATIVOS I

INDEPENDENTES, MARGINAIS, ALTERNATIVOS – 1ª Parte

 

 

Década de 80. Havia uma geração nova de escritores que, além de não encontrar espaço de publicação nos meios editoriais e jornalísticos existentes, não queriam apenas a burocracia que marcava a atuação dos círculos literários tradicionais.

Queríamos ganhar a rua, interagir com a cidade, ter contato direto com as pessoas, quer fossem leitores convictos ou apenas simpatizantes da literatura. Queríamos a poesia na vida concreta dos espaços públicos e a vida jorrando na poesia. A idéia era não apenas escrever, mas agitar culturalmente a cidade.

De muitas fontes e iniciativas isoladas, expressões dessa tendência espocavam. Nas esquinas, bares, em locais tradicionalmente relacionados à boemia ou à atividade cultural ou em outros inusitados de Olinda e do Recife, os modos de intervenção que caracterizaram esses poetas começaram a tomar forma e sentido. Existiu uma convergência espontânea, pela similitude de posturas e propostas e que viria a ser reforçada por contatos, ligações, encontros que foram acontecendo entre pessoas, grupos e subgrupos.

A atuação ocorria com declamações de poesia, recitais-relâmpago, happenings; lançamentos de livros mimeografados, xerografados ou outros meios artesanais, ou prensados em gráficas e bancados pelos próprios autores; e edição de jornais literários. Os trabalhos eram vendidos em bares, portas de teatro e cinema etc., ocasiões em que se costumava dizer poesia, como estratégia de chamar a atenção e conquistar o público presente.

Esses escritores passaram a ser conhecidos por independentes, marginais, alternativos e daí sua literatura e seus trabalhos impressos serem chamados de poesia independente e jornais alternativos e independentes.

O centro físico ou quartel-general de todas as presenças era a Livraria Livro 7 e entorno, formado pelos bares da Rua Sete de Setembro e do Beco da Fome. Rodava-se a cidade, espalhava-se pelos cantos e recantos, entretanto sempre voltava-se ao mesmo ponto irradiador. 

Desse período, conheci inicialmente o Jornal Poemar, editado por Mônica Franco, em Olinda, e em que publiquei, em 1982, meu primeiro poema. O ensaio inaugural no sentido de fazer algo parecido foi a impressão de um tablóide mimeografado, que rodei num equipamento conseguido sem muita cerimônia e sem conhecer ninguém de uma escola pública. Foi um pequeno delito consentido, pela arte.

Em maio desse ano, sai o número um do Jornal Lítero-Pessimista, de Francisco Espinhara e equipe, que trazia na capa O Morcego, de Augusto dos Anjos.

Neste mesmo ano, lancei o Jornal Vaga-Lume, desta vez produzido em offset. No número seguinte, juntarem-se à iniciativa Ângela Fernanda Belfort e Flávio Chaves. Lá estavam textos de Andréa Mota, Alberto Cunha Melo, Dione Barreto, Marcelo Mário Melo, Vernaide Wanderley, Manuzé, Wilton Lima, Jairo Cabral, Celina de Holanda, Hilton Lacerda (roteirista de Amarelo Manga e diretor de Cartola – Música para os Olhos), do artista plástico Ramos Melo e gravura do hoje cantor Gê Domingues. Continha, ainda, duas páginas dedicadas a Clarice Lispector, em uma época que as pessoas, no Recife, pareciam não dar muita importância a ela ou considerá-la completamente dissociada da história da cidade, logo ela que viveu e tanto amou o Recife. Basta ler suas crônicas e cartas para saber disso.

Estávamos no limiar da redemocratização do país e a referência política, no jornal, ficava por conta de uma charge que dizia: - mãe, o que é preciso para ser enquadrado na lei de segurança nacional? – basta dizer alguma verdade, filho. – E para ser corrupto? – É só ir morar em Brasília. Havia muitos reflexos dos anos mais duros desse período na minha geração, que nasceu e cresceu na ditadura militar.

Para divulgar o jornal, fui procurar Alberto da Cunha Melo, no Arquivo Público do Estado e que mantinha a coluna Commercio Cultural no Jornal do Commercio. Foi assim que o conheci.

Um pouco depois, surgiu o Ulalume, de muitos editores, entre eles, Antonio de Campos, Ângelo Monteiro, Paulo Gustavo e Arnaldo Afonso (hoje da Edições Bagaço e que, por gentileza e liberalidade, me deu de presente a capa de meu segundo livro).

Havia ainda os jornais Mandacaru, de Pedro do Amaral Costa, o Pro-Texto, de Arnaldo Tobias, o Contágil, de Dione Barreto e Manuzé, e outros tantos.



Escrito por marciliomedeiros às 00h26
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