Uma nova amiga - carioca, inquieta e solar - presenteou-me com a gravação do meu poema Partida. Ela é Rose de Castro, poeta que diz as coisas lindamente.
Confiram o vídeo.
PARTIDA
Marcilio Medeiros Morte não me trazes como antes não me cabe o teu estreito ventre.
Morte não me convences não balbucio o teu silêncio.
Rompeu-se o brilho do cristal coagulado a música dolorosa do teu cravo do tempo em que te persegui doente.
Comecei a escrever poesia por uma via transversal, influenciado pela música.
Venho de uma família amante das expressões musicais. Que benção, não é mesmo? Em reunião de família, rapidamente formava-se um conjunto e uma platéia participativa e animada. A razão era simples: entre tios, primos, irmãos, maridos etc, havia clarinetistas, trompetistas, saxofonistas, percussionistas, cantores e violonistas. De uma discreta seresta, aquilo transformava-se em uma festa dançante.
Em casa, a música era um ritual diário. Minha mãe ouvia Nelson Gonçalves e Roberto Carlos; meu irmão ia de Novos Baianos, Gal Costa, Maria Bethânia, Caetano Veloso, Chico Buarque, Jorge Ben, Beatles, Simon & Garfunkel, Creendence Clearwater Revival.
Após o almoço, ela recostava-se em uma rede, pegava o violão e soltava: “Não, eu não posso lembrar que te amei... vou indo, caminhando sem saber onde chegar...” Mas a sua canção preferida mesmo ainda é Último Desejo, de Noel Rosa: “Nosso amor que eu não esqueço e que teve seu começo numa festa de São João...”, que lembra as festas em homenagem ao padroeiro de sua cidade natal e que, por isso, tem o nome do santo.
Eu ficava ali junto, ouvindo-a cantar aquelas músicas sentimentais e, de um modo espontâneo e imperceptível, fui ficando repleto de versos e acordes. Por volta dos nove anos, ganhei uma vitrola Philips, com o tamanho aproximado de uma caixa de sapato e cuja tampa era o autofalante. Destacava-se uma parte da outra e estava pronta para tocar. Minha coleção de discos começou com Secos e Molhados, Ednardo (Pavão Misterioso) e uma coletânea que tinha Esse Tal de Roque Enrow, de Rita Lee, e a primeira gravação de Fafá de Belém, que se chamava Filho da Bahia. Ganhei, também, Carpenters, cantando Please, Mr. Postman, e Bill Haley, com Rock Around The Clock.
O problema é que não me contentava apenas com isso. Queria ir às apresentações musicais. Mas o que uma criança iria fazer num lugar desses? De tanta insistência, consegui a aprovação para ir, com um irmão, ao show de Rita Lee no Geraldão, que é um ginásio de esportes onde aconteciam, àquela época, muitos shows no Recife.
O violão era coisa que não faltava na nossa casa, quer se soubesse tocar ou não. Aos 14, ganhei um. Vieram aulas, com uma professora particular, que residia perto da Rua da Hora. No colégio, Venusa utilizava, em suas aulas, música popular brasileira para a interpretação de textos. Ensinava: “Tá lá o corpo estendido no chão. Em vez de rosto, uma foto de um gol”. Vejam: o morto foi encontrado com um jornal sobre o rosto, contendo uma matéria futebolística.
Não havia como escapar de tudo isso. Já estava completamente envolvido. Felizmente! Então pensei... vou fazer umas coisas dessas também. Aí saíram os primeiros textos, acompanhados de melodias imaginárias. Logo, deixei de lado as aulas de violão, mas continuei a escrever com regularidade. Não virei compositor, mas, pelo menos, a música nunca me deixou. É cotidiana na vida e na sonoridade que sempre busco criar na poesia.
Imagine se vocês que escrevem fossem independentes! Seria o dilúvio! A subversão total. O dinheiro só é útil nas mãos dos que não têm talento.
Vocês escritores, artistas, precisam ser mantidos pela sociedade na mais dura e permanente miséria! Para servirem como bons lacaios, obedientes e prestimosos. É a vossa função social!
Nasci sem pele. Um dia sonhei que estava nu num jardim e que cuidadosa e completamente me tiravam a pele como a um fruto. Não ficou nem um resto de pele no meu corpo. Foi toda mas toda retirada com cuidado e só depois me disseram para andar, viver e correr. A princípio movimentei-me devagar, o jardim era tremendamente macio e eu sentia de uma precisa o jardim-doçura, não na superfície do corpo, mas atravessando-me o ar doce e os perfumes, como agulhas penetrando todos os meus poros em sangue. Todos os poros estavam abertos e respiravam calor, doçura e cheiros. O corpo totalmente invadido, penetrado, reagindo, a mais pequena célula e poros vivos respirando e tremendo com prazer. Gritei de dor. Corri. E ao correr o vento chicoteava-me e as vozes das pessoas eram chicotes dirigidos a mim. Ser tocado! Acaso sabem vocês o que é ser tocado por um ser humano?
ANAÏS NIN
fonte:gravitando.wordpress.com
Anaïs Nin (1903-1977), escritora francesa que escreveu diários pessoais, a partir da puberdade e por cerca de quarenta anos de vida, e uma literatura carregada de erotismo. Publicou A casa do incesto, Uma espiã na casa do amor, Diários Íntimos e Delta de Vênus, entre outros.
Aos dez anos, deparei-me com a tarefa escolar de ler o volume 1 da Coleção Para Gostar de Ler, com crônicas de Drummond, Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos e Rubem Braga. Um dos textos que recordo especialmente, intitulado O Padeiro, falava da figura matinal que levava o pão à casa das pessoas, batia à porta e gritava: não é ninguém, é o padeiro. O cronista, certa vez, o indaga: como você teve a idéia de dizer isso... então, você não é ninguém? O interlocutor dá-lhe como resposta, sorrindo e sem mágoa, que se acostumou com aquilo, ao ouvir repetidamente a empregada dizer para a dona da casa, ao ser perguntada quem é, não é ninguém, não senhora, é o padeiro.
No ano seguinte, ganhei de aniversário O Menino do Dedo Verde, do escritor francês Maurice Druon, membro da Academia Francesa de Letras e bisneto de um brasileiro, Odorico Mendes, tradutor de Homero e Virgílio.
Contava a estória do menino Tistu, que fazia brotar flores e plantas com o toque do seu dedo e, ao ter contato com a violência do mundo, passa a utilizar seu dom especial, como forma de resistência e transformação da realidade.
Foi assim que me tornei um leitor voraz. Por essa época, descobri a Biblioteca Pública de Pernambuco, na qual havia uma seção circulante que emprestava livros a quem se cadastrasse. De posse do meu cartão de leitor – que era cinza, com uma foto na parte superior e muitos quadradrinhos para marcar as datas de empréstimo e devolução – passei a pegar livros sem parar. Desse modo, li tudo que encontrei pela frente de Julio Verne e Agatha Christie.
Em seguida, vieram os cronistas: os meus velhos conhecidos do livro da escola que citei acima, Lygia Fagundes Telles, Rachel Jardim, Cecília Meireles... Transitando, com curiosidade e desejo sem fim, por aquelas prateleiras de aço, logo vieram os romances e a poesia, e depois tudo junto.
Em casa, encontrei a coleção Grandes Romances Universais, formada por vinte volumes, editado pela W. M. Jackson Inc. Editores, em 1963, que tinha sido de meu pai. Como é aquilo tudo estava ali e eu não havia reparado? E haja A Escrava Isaura, de Bernardo Guimarães, Os Trabalhadores do Mar, de Victor Hugo etc., que lia, com solenidade, em volumes de capa dura.
Depois, comecei a formar minha biblioteca, com livros adquiridos na Livro 7. Isso e meu encontro com a literatura de Cecília Meireles e Clarice Lispector contarei depois.
Hoje, quando sentei para registrar estas reminiscências, encontrei, ao acaso, uma notícia acerca das comemorações dos 156 anos de fundação da Biblioteca Pública de Pernambuco, iniciadas dia 05 deste mês, e as memórias tornaram-se mais doces.
O evento Cartografia Web Literária, que começou ontem e vai até o dia 16, tem por objetivo discutir as relações entre literatura e internet.
Das apresentações e discussões, participarão profissionais, pesquisadores, editores, escritores, blogueiros, artistas multimídia, webdesigners, acadêmicos, pesquisadores na área de web arte, performers, poetas multimeios, músicos, professores, internautas e o público em geral.
PROGRAMAÇÃO:
* as zonas de exclusão do mercado literário e o papel da internet 12 terça 19h
Na primeira noite do evento, escritores e intelectuais de várias regiões do país debaterão sobre o mercado editorial brasileiro e as dificuldades para a inserção de autores que não publicam ou não transitam pelo eixo sul (onde há a concentração de capital, editoras e empresas de distribuição). A Internet veio reconfigurar a cartografia literária brasileira? Em que sentido a Internet contribui para o fortalecimento e fomento da Literatura? A qualidade das criações literárias foi influenciada de alguma maneira pela Internet?
Debatedores: Heloisa Buarque de Hollanda [pesquisadora e curadora] – RJ Fabrício Carpinejar [poeta e blogueiro] – RS Carlos Emílio C. Lima [ficcionista e editor] – CE Vicente Franz Cecim [poeta] - PA Raimundo Carrero [ficcionista e professor] - PE Mediador: Edson Cruz [poeta e editor do portal Cronópios] - SP
Encerramento: Leitura de textos com os escritores e Performance apresentada por Lúcio Agra
* publicação e distribuição da literatura em tempos digitais 13 quarta 19h
A segunda noite recebe escritores e editores que começaram, ou firmaram sua escrita e interferência no meio literário, em blogs, sites ou coletivos de literatura. Quais os caminhos da publicação e da distribuição da literatura em tempos de Internet e a importância de sites e blogs na trajetória de autores, iniciantes ou não, serão os temas do debate. Haverá telões onde os sites e blogs poderão ser mostrados e comentados.
Debatedores: Clarah Averbuck (http://adioslounge.blogspot.com/) Ana Paula Maia (http://killing-travis.blogspot.com/) Cardoso (André Czarnobai)(http://qualquer.org/salsbury/ ) Artur Rogério NÓS PÓS coletivo de Recife (www.nospos.blogspot.com) Lima Trindade, editor do VERBO 21/BA (http://www.verbo21.com.br/) Mediação: Fabrício Carpinejar (poeta e blogueiro, http://www.fabriciocarpinejar.blogger.com.br/)
Encerramento: Leitura de textos e discotecagem com DJ Malásia
Veja a programação completa e a biografia dos convidados aqui.
Todas as mesas terão transmissão ao Vivo pela TV Cronópios.
Ó polvo do olhar de seda: tu, cuja alma é inseparável da minha; tu, o mais belo dos habitantes do globo terrestre e que comandas um serralho de quatrocentas ventosas; tu, em quem residem nobremente, como em sua habitação natural, por comum acordo de indestrutível laço, a doce virtude comunicativa e as graças divinas – porque não estás tu comigo, com o teu ventre de mercúrio encostado ao meu peito de alumínio, sentados os dois nalgum rochedo da costa, para contemplarmos este espetáculo que eu adoro!
ISIDORE DUCASSE (Conde de Lautréamont)
Isidore Ducasse (1846-1870) nasceu em Montevidéu, Uruguai. Passou a maior parte de sua vida na França, onde escreveu e publicou suas obras, as quais assinava sob o pseudônimo de Conde de Lautréamont. Morreu aos 23 anos e sua biografia é pontuada de lacunas. Segundo a crítica Leyla Perrone-Moisés, Ducasse é um poeta maldito, buscando “o novo no fundo do desconhecido”.
Estava dando os primeiros passos no caminho misterioso da literatura. Com muita pressa e nenhuma autocrítica, queria publicar. Comecei a procurar opções, como um embriagado que persegue a sua primeira paixão. Um dia, deparei-me com um livro das Edições Pirata e a referência ao nome e endereço de Celina de Holanda.
Numa tarde de junho de 1981, dirigi-me à Rua Betania, no Derby. Nas mãos, levava meus poemas adolescentes. O porteiro interfonou... mandou subir. Celina recebeu-me, de modo muito suave e afável. Conversamos um pouco. Leu alguns poemas. Por fim, deu-me um exemplar de seu livro A Mão Extrema. Na dedicatória, uma exortação: para Marcilio, o jovem poeta que hoje conheci, afim de que prossiga. Foi o primeiro livro que recebi de um escritor. Lá encontrei Os amigos:
Os amigos chegam, ponho a mesa.
Branca, estendida a esperança.
Às sombras
rogo o ensejo do contraste
equilíbrio de opostos
necessário
ao claro, para a imagem.
Ó, a tristeza
de sermos o que somos e não
como queriam que fôssemos os que
amamos.
Os amigos chegam,
venham de onde vierem, ponho a mesa.
Absorvi aquele lirismo garimpado entre coisas do cotidiano, numa beleza despojada, sem adjetivação.
Ela não pareceu haver estranhado a invasão. Foi compreensiva com a minha inquietação. Guardei a memória gentil de Celina, naquela tarde nublada, em que cometi uma das loucuras iniciais em nome da literatura.
Em 1996 ou 97, fui a um evento promovido na Biblioteca Pública do Estado de Pernambuco, dos que a Bibliotecária Gleyde Vitor acolhia... e Celina estava lá. Estava debilitada, numa cadeira de rodas, mas estava ali, no seu espaço de ser, que era a vida literária. Depois de tanto tempo, pedi a Maria do Carmo Barreto Campello que fosse comigo até ela. Disse-lhe: Celina, há muito tempo atrás, fui à sua casa e você deu-me um livro, com a dedicatória em que lançava o incentivo de que eu prosseguisse na literatura. Ela sorriu.
É, Celina, eu prossegui.
fonte: arquivo pessoal
Praça do Hipódromo - Recife - 1981 (Marcilio Medeiros)
Sophia de Mello Breyner Andresen (Porto, 6 de Novembro de 1919 — Lisboa, 2 de Julho de 2004) foi uma das mais importantes poetisas portuguesas do século XX. Foi a primeira mulher portuguesa a receber o mais importante galardão literário da língua portuguesa, o Prêmio Camões, em 1999. (Fonte: Wikipedia)
Entre os dias 24 a 31 de agosto de 2008, acontece o 6º Festival Recifense de Literatura. Além de uma Festa do Livro, o evento conta com seminários, laboratório de comunicação literária, minicursos sobre teoria e criação literária, conferências, concurso de recitação poética, mostra de cinema, mesas-redondas, oficinas descentralizadas, leituras de ficção e de poesia e exposições. Em 2008, o Festival tem como tema: Recife de todas as leituras.
Coleção anima clássicos da literatura mundial para uso como material pedagógico
A coleção Que tudo mais vá para o inferno, da Livro Clip, disponibilizará gratuitamente para visualização e download vídeos e trailers de obras clássicas como MacBeth, de Shakspeare, e Fausto, de Goethe, apoiando-se no site Domínio Público. Também serão lançadas na rede informações biográficas dos autores, dados sobre a obra e algumas dicas para professores utilizarem o livro na sala de aula.
Prêmio Nobel de literatura morre aos 89 anos
Alexander Solzhenitsyn, vencedor do prêmio Nobel de Literatura em 1970, morreu em Moscou, vítima de um ataque do coração. O escritor se tornou um dos mais conhecidos dissidentes da União Soviética, o que resultou em sua prisão. Essa experiência se transformou nos livros Um Dia na Vida de Ivan Denisovich e Arquipélago Gulag. Leia mais sobre Solzhenitsyn na seção Favoritos, deste Boletim.
Alexander Solzhenitsyn
“Um artista vê a si mesmo como um criador de um mundo espiritual independente. Ele iça em seus ombros o dever de criar esse mundo, de povoá-lo e carregar toda a responsabilidade por ele; mas ele cai diante disso, onde um gênio mortal não é capaz de suportar tal encargo. Ele é apenas um homem comum, que declarou-se como o centro da existência, e não teve sucesso em criar um sistema espiritual balanceado. E quando esse infortúnio o alcança, ele culpa a desarmonia do mundo, a complexidade da hoje rompida alma, ou a estupidez do público. (...) Mas toda a irracionalidade da arte, suas deslumbrantes voltas, suas inacreditáveis descobertas, estão rachando a existência humana – elas estão cheias de mágica para se exaurir pela visão artística do mundo. (...) Nem tudo assume um nome. Algumas coisas estão além das palavras. A arte eleva até mesmo uma alma congelada e escurecida para uma experiência de grande espiritualidade (...) Como naquele espelho de contos de fada: Olhe nele e você verá – não você mesmo – mas por um segundo, o Inacessível, para onde nenhum homem pode cavalgar, nenhum homem pode voar. E para o qual a alma apenas dá um suspiro ...”
Entrevista concedida ao Der Spiegel em julho de 2007
·Página de Alexander Solzhenitsyn no site do Prêmio Nobel
A Livro 7 foi uma escola. Lá fiz o curso completo, imersão total. Não titubeio em dizer que foi um dos principais programas de formação que fiz na vida.
O resultado? Um baú de relíquias preciosas guardadas na cabeça e um punhado de livros que habitam comigo.
Já deixei cama, sofá, geladeira pelo caminho, mas os livros, discos, objetos e papéis (e mais papéis) me acompanham como uma sombra. Com eles, há diálogo, reconhecimento, cumplicidade, afastamentos, retomadas. Às vezes, como acontece com qualquer pessoa, esqueço de mim e essas coisas colocam a alma de volta no corpo.
A Livro 7, que tinha o slogan “a maior livraria do Brasil”, era um amplo galpão, com portas de rolo na entrada, vitrines em que se colocavam os escritores locais em destaque. Dentro, havia uma seção de literatura pernambucana e nordestina. No meio, uma pequena praça, para sentar e ler. Nas paredes, retratos de grandes escritores. Cecília Meireles, Clarice Lispector, Virginia Woolf, Manuel Bandeira, João Cabral... Quem mais? Ao fundo, funcionava a administração; perto, havia um bebedouro e o acesso para uma área aberta. Tarcísio Pereira, sempre vestido de azul, circulava e interagia com os fiéis clientes.
Intenso, compulsivo, eu ia lá todos os dias. Inúmeras tardes e noites passei ali, transitando entre as prateleiras e cavaletes repletos de livros, fuçando tudo, lendo pedaços ou obras inteiras, namorando os livros.
A paixão mais avassaladora, porque platônica e quase impossível, foi com o livro Oiro de Vário Tempo e Lugar: de São Francisco a Louis Aragon, coletânea robusta de poesias traduzidas por A. Herculano de Carvalho. Era uma edição portuguesa, cara, difícil de ser adquirida por um estudante. Ademais, era raro encontrar boas traduções de poetas no Brasil.
Tanto pelejei que, por fim, saí de braço dado com a minha conquista. A primeira noite de amor foi uma interminável sucessão de suspiros, sorrisos, delírios, enternecimentos. Queria apertar, comer, sugar, me lambuzar na seiva do objeto do desejo.
Quando não estava mexendo nos livros, ficava nos bancos colocados na calçada. Por ali, circulavam uma infinidade de escritores, artistas, estudantes, malucos. Conversávamos, sabíamos do que ia acontecer na cidade, líamos poemas uns dos outros.
Havia também uma programação ininterrupta de lançamentos de livros. A quantos eventos desse tipo compareci por curiosidade ou para prestigiar os amigos? Muitos, sem dúvida.
Em 1986, no lançamento do livro de memórias de Tonia Carrero (O Monstro de Olhos Azuis), ela veio caminhando pela rua com Paulo Autran e entrou pela porta da frente da livraria.
Cerca de dez anos depois, tempo em trabalhava no Palácio do Governo, quando Arraes era governador, fui à noite de autógrafos de seu livro, com Inah Lins e Vanja Campos.
O lançamento de meu primeiro livro aconteceu lá também em março de 1984.
fonte: arquivo pessoal
Lançamento de Anjo Clandestino. Ao meu lado, a jornalista Raquel Rodrigues.
Atrás, minha prima Deusa.
Existia, ainda, a Disco 7, que era a loja de discos e funcionava ali junto, na mesma rua Sete de Setembro, centro do Recife.
Os arredores eram uma espécie de extensão da livraria. Nos bares, via-se a vida passar, bebia-se, celebrava-se alguma alegria, discutia-se a vida literária, declamava-se poesia.
No sábado de carnaval, após o desfile do Galo da Madrugada, acontecia, em frente ao local, a concentração e saída do Bloco Nóis Sofre, mas Nóis Goza e seu impagável concurso de fantasias. Farra garantida sempre.
A Livro 7, que existia desde 1970, fechou as portas em 1998, deixando saudades de nós mesmos.
Ah... o bloco continua saindo do mesmo lugar.
fonte: arquivo pessoal
Carlos Albuquerque, Marcilio Medeiros e o escritor Raimundo de Moraes
em um evento literário na Livro 7, provavelmente em 1991.
O sentido normal das palavras não faz bem ao poema.
Há que se dar um gosto incasto aos termos.
Haver com eles um relacionamento voluptuoso.
Talvez corrompê-los até a quimera.
Escurecer as relações entre os termos em vez de aclará-los.
Não existir mais rei nem regências.
Uma certa luxúria com a liberdade convém.
* de Retrato Quase Apagado em que se Pode Ver Perfeitamente Nada
do livro O Guardador de Águas.
imagem: Jerry Uelsmann - fonte: devaneiosaovento.blogspot.com
Manoel de Barros (Cuiabá, 1916) nasceu à beira do rio Cuiabá. Mudou, quando criança, para Campo Grande e, mais tarde, para o Rio de Janeiro, a fim de completar os estudos. Formou-se bacharel em direito em 1941, tendo antes, em 1937, publicado seu primeiro livro, Poemas Concebidos sem Pecado. Na década de 1960, voltou a morar em Campo Grande.
A poesia que não admite qualquer tipo de aprisionamento
por Schneider Carpeggiani
“Vivíamos no intestino do Recife
e o Capibaribe
era um prato de sonhos
onde digeríamos versos”
Em cada época, os marginais/independentes/alternativos se comportam para provocar o dito ‘estabelecido’. Eles já colocaram a mochila nas costas e se jogaram nas estradas no tom do movimento beat, alguns bancaram os rebeldes sem causa lá nos anos dourados, foram feministas queimando os sutiãs e o sistema ou mesmo hippies pulando fora do mesmo. No Brasil, entre os meados da década de 70 e início dos anos 80, quando a ditadura militar começava a cambalear, eles se travestiram de poetas com livros, na maioria das vezes, rodados em mimeógrafos, bancados com recursos próprios, fora de qualquer establishment. E deixaram como legado um texto em que a poesia podia imitar a vida: às vezes ela era rígida, às vezes, totalmente livre. Aqui em Pernambuco, não foi diferente.
O poeta e professor Francisco Espinhara acaba de lançar o livro Movimento de Escritores Independentes de Pernambuco 1980/1988, que documenta aquele período aqui no Estado, seus principais autores e faz ainda uma pequena seleta dos poemas mais marcantes do momento. Ao contrário do eixo Rio/São Paulo em que o boom de poetas marginais aconteceu nos anos 70 e foi documentado na célebre coletânea 26 Poetas Hoje, de 76, compilada por Heloísa Buarque de Holanda, no Recife ele só tomou forma no início da década seguinte, após o I ENEI (Encontro Nacional de Escritores Independentes), que deu forma ao movimento, em 81, na capital cearense.
Assim como o movimento se denominou independente, o livro que o documenta também seguiu a mesma trilha. Sem conseguir apoio para a publicação, Espinhara acabou lançando a obra com recursos próprios, tomando empréstimos aqui e ali. “Até hoje nós continuamos a ser independentes”, afirmou em completo tom de auto-ironia.
Talvez pelas dificuldades de arrecadar recursos para publicação e, como não poderia deixar de ser para sua própria realização, Espinhara não realizou com essa obra a documentação definitiva do período. Fez mais uma espécie de ‘dicionário’ dos seus principais verbetes. Mais interessante e, com certeza, mais representativa seria uma obra que registrasse as nuances da poesia pernambucana desde a Geração 65, passasse pelos anos 70 e 80 e chegasse aos 90, um pouco mais ‘calada’ e menos articulada.
MARGINAL E HERÓI – A palavra ‘independente’ logo levanta a inevitável questão: “independente de quê?”. O movimento de autores independentes em Pernambuco era formado, em sua maioria, por adolescentes, muitos deles estudantes, que formavam jornais de poesia e editavam seus livros no melhor estilo ‘juntar a mesada e contar com a vaquinha dos amigos’. Estavam totalmente por fora, então, dos esquemas das editoras locais e nacionais.
Sem uma preocupação com a forma, os diversos grupos que formavam o movimento não seguiam qualquer regra e nem mesmo se preocupavam em seguir os passos da geração que, anteriormente movimentou as letras do Recife, a de 65. Os novos poetas podiam tanto escrever poemas cabralinos, quanto haikais ou outros com um pé fincado na prosa. O importante mesmo era escrever e fazer os textos serem lidos.
Em relação à Geração 65, formada por nomes como Marco Polo, Marcus Accioly, Lucila Nogueira, Tereza Tenório e Alberto da Cunha Melo, a relação era, na maioria das vezes, de apoio. Alberto, inclusive, sobre os novos poetas escreveu: “De uma coisa os poetas independentes de Pernambuco podem estar certos: começaram a incomodar muita gente. A tradição de clientelismo na literatura do Estado não perdoa esse punhado de jovens que dão o seu recado pelas ruas do Recife, recitando seus poemas, vendendo seus livros, arengando, amando, vivendo. A falta de críticos literários abre um vácuo onde a má vontade ocupa lugar da análise, do estudo da produção desses jovens, na maioria pobres, crescidos nos anos nojentos da ditadura militar”.
Matéria originalmente publicada no Jornal do Commercio - Recife - 19.11.2000, domingo.
“Minha geração, a chamada Geração de 65, ainda esteve atrelada ao afilhadismo literário. Teve seus salvadores, seus protetores, seus padrinhos. Alguns pagaram caro por isso. Esse pessoal novo veio com garra, veio gritando e cobrando seu merecido espaço numa imprensa que se esqueceu propositalmente do seu compromisso social maior; o de espelhar a realidade como ela é, já que criticar os poderosos é querer demais dela”, completou Alberto.
A poeta Cida Pedrosa (responsável pelo poema que abre a matéria), que voltou a publicar este ano depois de quase dez anos ausente, foi uma das mais atuantes do período e ressalta a importância do apoio de Alberto. “Ele sempre nos deu força. Olhou nossa poesia de uma forma séria e nos impulsionou”, declarou.
Outro grande incentivador do movimento, o livreiro e antigo dona da notória Livro 7, Tarcísio Pereira, a quem o livro é dedicado, lembra dos eventos organizados pelos escritores: “Eu sempre tentei apoiar e abrir o espaço da Livro 7 para todos os tipos de escritores em Pernambuco. Eles vinham à Livro 7 para se reunir, não só na livraria, como também na 7 de Setembro”.
E a 7 de Setembro era um dos principais pontos de encontro dos poetas. “Sábado, umas 10h da manhã, as pessoas costumavam chegar e se reuniam na rua para recitar poesia. O povo gosta de poesia, gosta de arte, só é preciso que ela seja levada a ele. Um dos momentos que mais me emocionou, durante esse tempo, foi uma madrugada, quando a gente voltava de um recital, passando pela Ponte Velha e um dos poetas do grupo começou a recitar Porque Hoje é Sábado, de Vinícius. Na mesma hora, os varredores de rua, que estavam chegando para o trabalho, pararam, sentaram e ficaram prestando atenção”, lembrou Cida.
Outros lugares escolhidos para os encontros eram o Bar Savoy, na Guararapes, e os de Olinda. “Chegávamos para vender os nossos livros e o recital começava. Era muito forte”, completou Cida. Além de recitais, outra forma de divulgar a poesia era a partir de pequenos jornais independentes, muitos deles de periodicidade incerta, mas que representavam a diversidade da produção poética.
O movimento de escritores independentes era disforme não só em questões de poemas livres x sonetos. Muitos autores, que comungavam do rótulo de independentes não participavam dos encontros. “Nunca fui a reunião alguma, como também nunca me preocupei em fazer parte desse ou daquele grupo em nenhum momento da minha vida. Aquele era um período que as pessoas se reuniam como forma de buscar formas alternativas para divulgar seu trabalho”, declarou a jornalista, cineasta e poeta Clara Angélica.
Nos anos 80, um dos poemas de Clara, inclusive, foi utilizado como epígrafe do livro Não Verás País Nenhum, de Ignácio de Loyola Brandão, traduzido para vários idiomas. A autora teve ainda uma obra publicada pela Edições Piratas, comandado por Jacy Bezerra, da Geração 65, que utilizava, às surdinas, as gráficas da Fundaj para editar livros.
O jornalista e poeta Xico Sá ressalta a tradição de poesia do Estado. “Pernambuco sempre teve uma tradição muito grande com a poesia, desde Castro Alves na Faculdade de Direito. Apesar, de naquela época, outros estados brasileiros terem poetas com trabalho semelhante, o Recife foi a cidade brasileira que, acredito, viveu isso de forma mais intensa. Tanto pelos números de recitais, quanto de autores. Muitos achavam ruim haver tantos poetas, mas o tempo serviu como uma peneira para quem de fato sabia escrever.
Como, naquele momento, o Recife estava fraco em termos de música, de cinema, ele se voltava à literatura. É possível ver nas letras de muitas bandas de hoje rastros daquele tipo de poesia”, completou.
Matéria originalmente publicada no Jornal do Commercio - Recife - 19.11.2000, domingo.