Vida Literária por Marcilio Medeiros


INTERSEÇÕES

fonte: bluehydrangeas.wordpress.com

Sylvia Plath

 

FEBRE 40º

 

Pura? Como assim?
As línguas do inferno
São sujas, sujas como as três

Línguas do sujo e gordo Cérbero
Que arfa ao portão. Incapaz
De lamber e limpar

O membro em febre, o pecado, o pecado.
A chama chora.
O cheiro inconfundível

De um toco de vela!
Amor, amor, a fumaça escapa de mim
Como a echárpe de Isadora, e temo

Que uma das pontas ancore-se na roda.
Uma fumaça amarela e lenta assim
faz de si seu elemento. Não vai subir,

Mas envolver o globo
Sufocando o velho e o oprimido,
O frágil

Bebê em seu berço,
Orquídea pálida
Suspensa em seu jardim suspenso no ar,

Leopardo diabólico!
A radiação o embarque
E o mata em uma hora.

Engordurando os corpos dos adúlteros
Como as cinzas de Hiroshima que os devora.
O pecado. O pecado.

Meu bem, passei a noite
Me virando, indo e vindo, indo e vindo,
Os lençóis me oprimindo como o beijo de um devasso.

Três dias. Três noites.
Limonada, canja
Aguarda, água me deixe enjoada.

Sou pura demais pra você ou pra qualquer um.
Seu corpo
Me ofende como o mundo ofende Deus. Sou uma lanterna -

Minha cabeça uma lua
De papel japonês, minha pele folheada a ouro
Infinitamente delicada e infinitamente cara.

Meu calor não te assusta. Nem minha luz.
Sou uma camélia imensa
Que oscila e jorra e brilha, gozo a gozo.

Acho que estou chegando,
Acho que posso levantar -
Contas de metal ardente voam, e eu, amor, eu

Sou uma virgem pura
De acetileno
Cercada de rosas,

De beijos, de querubins,
Ou do que sejam essas coisas róseas.
Não você, nem ele,

Não ele, nem ele
(Eu me dissolvo toda, anágua de puta velha) -
Ao Paraíso.

 

Tradução de Rodrigo Garcia Lopes e Maurício Arruda Mendonça



Categoria: Interseções
Escrito por marciliomedeiros às 18h13
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E FÁTIMA, ONDE ANDA?

fonte: voodapoesia.blogs.sapo.pt/

 

 

Circle Dreams I, de Celine Nerbelow

 

 

E FÁTIMA, ONDE ANDA?

 

No último dia 17, pretendia escrever sobre uma coisa e saiu outra. Veja aqui.

 

Hoje, retomo a idéia que havia ficado para trás.

 

Tirar um livro da estante é puxar um novelo de histórias que vou desenrolando e no qual, quase sempre, me confundo.

 

Um acontecimento, um mero instantâneo aparentemente desconexo leva a outro, que, por sua vez, remete a outro, numa sucessão que não tem fim.

 

Em alguns momentos, estou buscando um livro específico, que parece querer se esconder. Em outros, o livro me procura, cai sobre mim.

 

Pois bem. Mexendo neles, reencontrei Dedetização: dia de festa, de Fátima Ferreira, lançado em 1981. É o primeiro ou segundo livro dela.

 

A pergunta inevitável foi: por onde anda Fátima? Penso que já faz algum tempo que está afastada da literatura, ou apenas das publicações, talvez dedicando-se unicamente às lides jurídicas.

 

Lembrei-me com carinho da Fátima poeta, editora de jornais de poesia, organizadora de exposições, integrante do movimento de escritores independentes; da Fátima, olindense, cuja imagem ficou na mente tão associada a Olinda.

 

Nossa geração não se contentava apenas em escrever. Não esperávamos as oportunidades surgirem. Um traço comum é que criávamos os meios de mostrar nosso trabalho. Outros podem ter feito isso, mas, no nosso caso, a opção foi radical. Daí a alcunha de independentes, nesse sentido, ter sido bem utilizada, uma independência que se expressou também pelo não atrelamento aos círculos viciados do patrimonialismo literário. Ninguém nos segurou.

 

Voltando ao livro, o poema que lhe dá título tem força e sutileza:

 

 

DEDETIZAÇÃO

 

                  Fátima Ferreira

 

Hoje

não haverá fantasmas

nem assombrações

todas as portas serão abertas

todas as gavetas de medo

terão seus segredos desvendados

não haverá torturas caladas

que não dêem o seu berro

e nas casas

tudo ficará posto

a uma claridade divina

para a dedetização.

 

 

E, então, Fátima, o que você tem feito?

 



Categoria: Vida Literária
Escrito por marciliomedeiros às 22h31
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INTERSEÇÕES

MÁRIO DE SÁ-CARNEIRO

 

fonte: papelderascunho.net

 

ÁLCOOL

(excerto)

 

                 Mário de Sá-Carneiro

 

Que droga foi a que me inoculei?

Ópio de inferno em vez de paraíso?…

Que sortilégio a mim próprio lancei?

Como é que em dor genial eu me eternizo?

 

Nem ópio nem morfina. O que me ardeu,

Foi álcool mais raro e penetrante:

É só de mim que ando delirante —

Manhã tão forte que me anoiteceu.



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Escrito por marciliomedeiros às 21h17
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NOTÍCIAS SELECIONADAS E PRÊMIOS LITERÁRIOS

Bibliotecas disponibilizam acervo digital e entram na era dos portáteis

Bibliotecas norte-americanas expandiram o acesso a seus acervos em formato digital, permitindo que seus usuários baixem livros de sites como o da Biblioteca Pública de Phoenix. Disponibilizados  gratuitamente, os títulos podem ser lidos por diversos tipos de programas e, caso as obras não estejam disponíveis no momento, acontece o arquivamento para uma futura visita. As obras permanecem no computador dos usuários por cerca de três semanas, desaparecendo por completo após o tempo de empréstimo.

Novo tipo de leitor em formação

O caderno Link do jornal O Estado de S. Paulo destacou alguns dados da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, do Instituto Pró-Livro, em uma reportagem sobre as possibilidades de mudanças no mercado editorial a partir do uso das tecnologias digitais. Já são cerca de 7% os leitores brasileiros que baixam livros pela web, lendo as obras diretamente em monitores e PDAs (computadores de bolso). Só no site Domínio Público, criado em 2004, são 75 mil títulos oferecidos gratuitamente, sendo Shakespeare um dos autores mais baixados (8,5 milhões de downloads) e A Divina Comédia, de Dante Alighieri, o livro mais requisitado (500 mil downloads).

 

Prêmios literários

Prêmio Casa de Rui Barbosa 2008
Período de inscrições: até 30 de setembro
Aberto a: monografias realizadas a partir do acervo bibliográfico e arquivistico da Fundação Casa Rui Barbosa.
Premiação: R$ 9 mil para o primeiro colocado e R$ 6 mil para o segundo.
Mais informações 

 

EXTRAÍDO DE: BOLETIM PNLL nº 117



Escrito por marciliomedeiros às 20h26
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6º Festival Recifense de Literatura

6º Festival Recifense de Literatura

A Letra e a Voz

 

PROGRAMAÇÃO COMPLETA

(clique na imagem)



Escrito por marciliomedeiros às 00h44
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Simpósio Internacional Caminhos Cruzados: Machado de Assis será transmitido via web

fonte: wikimedia commoms

 

Simpósio Internacional Caminhos Cruzados: Machado de Assis será transmitido via web

 

O Simpósio Internacional Caminhos Cruzados: Machado de Assis pela Crítica Mundial acontece no período de 25 a 29 de agosto, no auditório do MASP, em São Paulo. Este ano comemora-se o centenário da morte Machado de Assis.

 

O evento, com acesso gratuito ao público, reúne importantes nomes da crítica nacional e mundial especializada no autor.

 

Entre os nomes brasileiros, estão Roberto Schwarz, Valentim Facioli, Alberto Costa e Silva, Gilberto Pinheiro Passos, Antonio Carlos Secchin, Hélio de Seixas Guimarães, Carlos Alberto Vogt, Lúcia Granja, Luiz Roncari e Sérgio Paulo Rouanet.

 

No âmbito internacional, há presenças de estudiosos da Europa, Américas do Norte e Sul, a exemplo de Daphne Patai (Universidade de Massachusetts), Jean Michel Massa (Universidade de Rénnes 2), Abel Barros Baptista (Universidade Nova de Lisboa), Amina di Munno (Universidade de Gênova), Dain Borges (Universidade de Chicago), Elide Valarini Oliver (Universidade da Califórnia), Jorge Edwards (Chile - Prêmio Cervantes), Kenneth David Jackson (Universidade de Yale), Paul Dixon (Purdue University), Thomas Straeter (Universidade de Heidelberg), Todd Garth (US Naval Academy) e Victor K. Mendes (Universidade de Massachussets).

 

A saudação, em nome dos escritores brasileiros, será feira pelo escritor Milton Hatoum.

 

Veja a programação completa do evento no site oficial: www.machadodeassis.unesp.br/simposio . Outras informações podem ser obtidas pelo e-mail simposio@machadodeassis.unesp.br e/ou telefone (11) 3871-2339.

 

Quem não estiver em São Paulo, pode assistir, ao vivo, pela Faac WebTV, no endereço www.faac.unesp.br/webtv

 

MACHADO DE ASSIS - foi um romancista, contista, poeta e teatrólogo, considerado um dos maiores escritores brasileiros e identificado, pelo crítico Harold Bloom, como o mais importante escritor afro-descendente de todos os tempos.

 

É tido como um dos criadores da crônica no país. Foi também um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras e seu primeiro presidente.

 

*Com informações biográficas do Wikipedia.



Escrito por marciliomedeiros às 15h55
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INTERSEÇÕES

gravura: Samuel Hollyer. fonte: wikimedia commons

Walt Whitman

 

CANTO DE MIM MESMO

 

Walt Whitman

 

Com a estrondosa música venho, com as minhas cornetas e tambores,

Não só toco marchas para os vencedores aclamados, também as toco para os conquistados e abatidos.

 

Ouviste dizer que foi bom vencer?

Também te digo que é bom perder, as batalhas perdem-se com o mesmo espírito com que se ganham.

 

Toco e volto a tocar pelos mortos,

Sopro por eles a minha mais alta e alegre melodia.

 

Vivas pelos vencidos!

E por aqueles cujos vasos de guerra afundaram no mar!

E pelos náufragos também!

E por todos os generais que perderam e por todos os vencidos heróis!

E pelos inumeráveis heróis desconhecidos iguais aos maiores heróis conhecidos!

 

 

Do livro Canto de Mim Mesmo (Song of Myself). Assírio e Alvim,1992.

Tradução de José Agostinho Baptista

 



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Escrito por marciliomedeiros às 15h18
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NOVO LIVRO SOBRE CLARICE LISPECTOR

fonte: olhandoosmovimentos.blogspot.com

Clarice em Berna, Suiça (1946)

 

NOVO LIVRO SOBRE CLARICE LISPECTOR

 

Vale a pena ler a matéria sobre o livro Clarice Lispector, Essa Desconhecida..., de Julio Lerner.

 

O autor faleceu ano passado e foi o último jornalista a entrevistar Clarice, em 1977, para a TV Cultura, antes da morte da escritora.

 

Julio faleceu era jornalista traz pesquisa sobre a vida da escritora e sua última entrevista para a televisão

 

Clique neste link.

 

 

Veja também a entrevista no Youtube:

 

Entrevista com Clarice Lispector (1977) Parte 1

Entrevista com Clarice Lispector (1977) Parte 2

Entrevista com Clarice Lispector (1977) Parte 3

Entrevista com Clarice Lispector (1977) Parte 4

Entrevista com Clarice Lispector (1977) Parte 5



Escrito por marciliomedeiros às 20h32
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LEMBRANÇAS DA LIVRO 7

LEMBRANÇAS DA LIVRO 7

 

Samarone Lima*

 

Vi as reportagens, fiquei sabendo pelos comentários dos amigos, que a Livraria Cultura, instalada no Cais da Alfândega, era um negócio extraordinário. Uma série de viagens foi adiando minha primeira visita ao novo território cultural da cidade. Além disso, queria ir com um dinheiro extra para não ficar horas lambendo os livros e depois sair de mãos vazias. Por força das circunstâncias, especialmente da fiscalização, há tempos não roubo livros.

 

Pois no sábado, olhei o saldo no banco e tinham depositado o tal dinheiro extra. À tardinha, tomei um banho demorado e fiquei pensando neles, os meus preferidos: Lawrence Durrell, Bruce Chatwin, Roberto Bolaño, Vicente Huidobro, Ernesto Sábato, Robert Arlt, Oswaldo Soriano etc. Não, amigos, não sou adepto dos medalhões. Acho um tédio esse negócio de todo mundo considerar Flaubert, Dostoievski, Proust, Neruda os donos da pelota. Tenho vários crimes literários. Larguei, sem remorso, "Crime e Castigo" pela metade. Neruda não chega aos pés de Huidobro e o leio até com um certo desdém. O Quarteto de Alexandria, de Durrell, me comove mais que toda a obra de Proust que, por sinal, só li o primeiro volume. Prefiro mil vezes Mia Couto, de Angola, que o alardeado Rubem Fonseca e toda sua prole de "autores brutais" que o Brasil tem nos presenteado. Se é para ser brutal, vou de Henry Miller.

 

Peguei o renomado Alto Santa Isabel, da Transcol (informo que o proprietário bebe aqui em seu Vital), atravessei a ponte (prometi este ano decorar o nome de todas as pontes do Recife) e vi, de longe, o nome "Cultura". Quando cheguei, já vi que o negócio era profissional. Tinha uma moça com walk-talk na entrada, pastorando os leitores, e a porta era de vidro, automática. Entrei, era tudo lindo e refrigerado. Perguntei à moça do computador se tinha livros do Roberto Bolaño. Tem sim, Noturno do Chile, respondeu ela, com uma voz de veludo, mas com aquela elegância programada das aeromoças. Em trinta segundos, eu estava com o livro nas mãos.

 

A primeira pessoa conhecida que encontrei foi Benira, do JC OnLine. Ficamos a conversar umas coisinhas até que ela foi para um lado, e fiquei com a literatura estrangeira. Lamento informar, meus leitores, mas os meus preferidos estavam em baixa. Do Durrell, só livro de poemas (que é muito ruim, por sinal), e nada do Bruce Chatwin. Fiquei perambulando, olhando o monumento que é a livraria, com uma parte só para CDs, outra para DVDs, outra só de literatura infantil (como estão lendo, essas crianças de hoje!) e uma parte de livros técnicos.

 

É tudo muito bonito, os vendedores são educadíssimos, há computadores para consultas imediatas, tem cafeteria (tomei um expresso por 3 contos), mas depois de meia hora, o que senti mesmo foi uma bruta saudade da Livro 7.

 

Sim, amigos, a lendária Livro 7, do Tarcisio Pereira, fez parte da vida de muita gente, especialmente da minha. Aliás, fez parte da história do Recife. Foi lá que encontrei abrigo nas noites mais tristes, naquele período liseira total de Casa do Estudante, entre 1987 e 1992, meu primeiro ciclo de "estudante-que-depende-do-restaurante-universitário-da-Federal".

 

Quantas horas eu não passei na Livro 7, entre aquelas prateleiras rústicas?! Lembro daqueles vendedores com cara de que moravam na UR-7, Ibura, Cohab 7, menos cabeça feita que os da Cultura, mas capazes de comentar sobre o resultado do Santa Cruz na rodada anterior e falar do resultado do jogo do bicho da noite. Sim, gente que bebe cerveja em copo americano, e pede um "ele/ela" na saída do trabalho para desafogar o cansaço. E as fotos emolduradas nas paredes? Hermilo, Ariano, Osman Lins. Eu, que tinha chegado de Fortaleza com uma bagagem cultural meia-boca, comecei a encontrar essas criaturas e descobri que meu coração ficaria por aqui mesmo. Para completar, eu tinha um jornaleco na Casa do Estudante, o "Correio Cultural", e Tarcisio apoiou diversas vezes, dando uma grana fundamental para o projeto não morrer.

 

Voltei da Cultura com três livros (Bolaño, Gay Talese e Paulo Mendes Campos), mas atravessei a ponte de volta com uma puta saudade da Livro 7. Lembro que eu estava em São Paulo, quando recebi a notícia: a Livro 7 fechou. Foi como se o Acho é Pouco tivesse se dissolvido, o Papa Figo saísse de circulação ou o Empório Sertanejo começasse a fechar à meia-noite.

 

Fiquei triste, lembrei que roubei alguns livros, fruto da minha mendicância cultural. Não, não foi nada de roubo em série, que causasse estragos na contabilidade de Tarcisio Pereira. Alguns livros prediletos, quando a grana não dava sequer para um bom livro de poemas. Vai aqui, tardiamente, meu pedido de perdão. Foi mal, Tarcisio!

 

A Livraria Cultura está ali, imponente, com milhares de livros, CDs, DVDs, tudo bacana, organizado, exatamente como em São Paulo. É um padrão rigoroso de qualidade, mas acho que não sou muito adepto deste formato shopping center. Senti falta de algo que não sei o nome, talvez algum leitor possa me ajudar a explicar (se é que é necessário explicar tudo nesta vida).

 

Me deu uma vontade enorme de ir à 7 de Setembro e ver aquele imenso galpão repleto de gente, de comprar um livro e sair para tomar uma cerveja naqueles botecos da região, comer um daqueles espetinhos tenebrosos assados pela fumaça, fundamentais para a boa saúde, com o velho amigo Waldemir Leite, carne e unha comigo desde o primeiro dia da Católica, em 1988. Mas o tempo passou e as coisas mudaram. Fica somente a constatação: gosto mesmo de umas coisas fora de moda.

 

Foi na Livro 7 que me alfabetizei para a vida. Os tempos são outros, a vida segue. Não, esta não é uma crônica triste sobre coisas que tombaram. Acho que é uma pequena lembrança sentimental de um lugar que nos pertenceu, gerador de tantas epifanias. Quem nunca marcou um encontro "na entrada da Livro 7" que levante o dedo.

 

Se eu fosse vereador, tentaria tombar aquele galpão da Livro 7, onde reside nossa memória espiritual. Colocaria uma placa na entrada, dizendo "Aqui, o povo de Pernambuco aprendeu a amar os livros".

 

De qualquer forma, votos de vida longa à Livraria Cultura, onde irei gastar uns bons trocados.

 

 

A crônica de hoje é dedicada a Tarcisio Pereira.

 

 

* SAMARONE LIMA tem 39 anos, é jornalista e autor dos livros Zé (1998), Clamor (2003) e Estuário (2006).

 

Texto publicado em 11 de outubro de 2004. Agradecemos ao autor ter autorizado a reprodução.



Categoria: Vida Literária
Escrito por marciliomedeiros às 14h57
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O QUE EU IRIA DIZER

fonte: wikimedia commons

Bairro do Recife ao longe, visto da Ilha de Santo Antônio. Pintura de Frans Post - século XVII

 

 

O QUE EU IRIA DIZER

 

A iniciativa de fazer este blogue surgiu de uma idéia prosaica. Seria melhor e soaria mais bonito se eu pudesse dizer que tinha algum projeto grandioso quando o iniciei. Não foi.

 

A força motriz foi a simples e pura necessidade de revirar as memórias do que vivi ou presenciei no mundo da literatura. Daí, o nome Vida Literária, que me veio à mente, espontaneamente, de um livro guardado cá comigo e cujo título nunca me saiu da cabeça, não sei bem porquê.

 

O livro chama-se Literatura e Vida Literária: polêmicas, diários & retratos, foi lançado em 1985, época da reabertura política do país, e a autora é Flora Süssekind. Fazia parte de uma coleção da Jorge Zahar Editor, intitulada Brasil, os Anos de Autoritarismo.

 

Provavelmente, o que fez surgir essa idéia, essa vontade, essa necessidade tenha sido saudade, gerada pelo fato de eu estar fora do meu habitat natural.

 

Se poetas são propensos a sentimentos extremados e a uma boa dose de melancolia, pernambucanos padecem irremediavelmente de saudade. Pernambucanos sempre parecem nostálgicos de alguma coisa, de um-não-sei-quê. Em uma conversa virtual ou real sobre qualquer assunto sempre surge uma brecha para o saudosismo.

 

Escrevendo o texto sobre a Livro 7, postado há uma semana atrás aqui, pesquisei na internet sobre as datas de início e encerramento das atividades da famosa e inesquecível livraria. Encontrei alguns depoimentos pessoais, em tom memorialista, sobre isso.

 

Os comentários que os leitores fizeram a essas postagens foi um capítulo à parte. Ler sobre a livraria foi motivo para as pessoas terem saudade de todas as coisas que existiam ao redor dali: do Beco da Fome, do cachorro quente da Cascatinha, do espetinho de carne vendido na rua, dos bares, da Livraria Síntese, que funcionava na Rua do Hospício, depois na Rua do Riachuelo. Teve gente que lembrou até da Fecin (parque de diversões que existia perto da minha casa) e do tobogã da Rua da Aurora.

 

Eu, que padeço do mesmo mal, ainda acrescentei, mentalmente, o DCE da UFPE, que ficava na já citada Rua do Hospício, quase na esquina com a Av. Conde da Boa Vista, cujo prédio foi derrubado e em que eu vivia sentado nos batentes da entrada, em uma época de movimento estudantil e inícios da poesia.

 

Será isso herança lusitana? Se for, o atavismo expressou-se de forma absolutamente inexpugnável. De minha parte, ao pensar em Pernambuco, sempre relembro Fernando Pessoa, talvez o poeta de que mais gosto entre uma legião preciosa e restrita de favoritos: ó, mar português, quanto do teu sal são lágrimas de Portugal.

 

Isto poderia ter sido dito de Pernambuco. Quanta luta e sofrimento houve para sermos quem somos! Como não lamentar o fuzilamento de Frei Caneca, que lutou pela liberdade, ou o incêndio de Olinda pelos holandeses?

 

Na verdade, eu iria escrever sobre gente cujos livros reencontrei hoje na estante, mas saiu este texto. Amanhã, falo do que pretendia ter dito, isso se eu não me perder novamente em outros devaneios.



Categoria: Vida Literária
Escrito por marciliomedeiros às 00h06
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INTERSEÇÕES

PEDRO KILKERRY

 

Este é um dos meus poetas brasileiros preferidos. Considero-o um dos mais inventivos. Ele sempre cria imagens surpreendentes e trabalha. esteticamente, a linguagem de modo a apenas anunciar, nunca revelar por inteiro, o que permite ao leitor construir sua própria interpretação do texto. Isso é poesia!

 

Observem que o primeiro quarteto (estrofe de quatro versos) poderia ter sido escrito por qualquer outro escritor simbolista. Todavia, o resto do soneto é Pedro Kilkerry em toda a sua grandiosidade.

 

 

O MURO

 

Movendo os pés doirados, lentamente,

Horas brancas lá vão, de amor e rosas

As impalpáveis formas, no ar, cheirosas...

Sombras, sombras que são da alma doente!

 

E eu, magro, espio... e um muro, magro, em frente

Abrindo à tarde as órbitas musgosas

— Vazias? Menos do que misteriosas —

Pestaneja, estremece... O muro sente!

 

E que cheiro que sai dos nervos dele,

Embora o caio roído, cor de brasa,

E lhe doa talvez aquela pele!

 

Mas um prazer ao sofrimento casa...

Pois o ramo em que o vento à dor lhe impele

É onde a volúpia está de uma asa e outra asa...

 

Pedro Militão Kilkerry (Santo Antônio de Jesus - BA, 1885 - Salvador - BA, 1917). Filho de irlandês e baiana, formou-se em Direito. Pobre e boêmio, morreu tuberculoso, sem ter qualquer livro publicado.



Categoria: Vida Literária
Escrito por marciliomedeiros às 03h39
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INTERSEÇÕES

ZILA MAMEDE

 

Fonte: sitiorupestre-novapalmeira.blogspot.com

 

Zila Mamede

 

ELEGIA

 

Não retornei aos caminhos

que me trouxeram do mar.

Sinto-me brancos desertos

onde as dunas me abrasando

tarjam meus olhos de sal

dum pranto nunca chorado,

dum terror que nunca vi.

 

Vivo hoje areias ardentes

sonhando praias perdidas

com levianos marujos

brincando de se afogar,

com rochedos e enseadas

sentindo afagos do mar.

 

Tudo perdi no retorno,

tudo ficou lá no mar:

arrancaram-me das ondas

onde nasci a vagar,

desmancharam meus caminhos

- os inventados no mar:

depois, secaram meus braços

para eu não mais velejar.

 

Meus pensamentos de espumas,

meus peixes e meu luar,

de tudo fui despojada

(até das fúrias do mar)

porque já não sou areias,

areias soltas de mar.

Transformaram-me em desertos,

ouço meus dedos gritando

vejo-me rouca de sede

das leves águas do mar.

 

Nem descubro mais caminhos,

já nem sei também remar:

morreram meus marinheiros,

minha alma, deixei no mar.

 

Pudessem meus olhos vagos

ser ostras, rochas, luar,

ficariam como as algas

morando sempre no mar.

 

Que amargura em ser desertos!

Meu rosto a queimar, queimar,

Meus olhos se desmanchando

- roubados foram do mar.

No infinito me consumo:

acaba-se o pensamento.

No navegante que fui

sinto a vida se calar.

 

Meus antigos horizontes,

navios meus destroçados,

meus mares de navegar,

levai-me desses desertos,

deitai-me nas ondas mansas,

plantai meu corpo no mar.

Lá, viverei como as brisas.

Lá, serei pura como o ar.

Nunca serei nessas terras,

Que só existo no mar.

 

 

Zila da Costa Mamede nasceu em Nova Palmeira – PB, 10 de setembro de 1929 - Natal – RN, 13 de dezembro de 1985. Ainda criança, passou a residir no interior do Rio Grande do Norte, onde moravam seus avós, depois em Natal. Fez o curso de Biblioteconomia na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro e um curso de especialização nos Estados Unidos.

É considerada a maior poeta do Rio Grande do Norte, apesar de nascida na Paraíba.
Zila, que tanto amava o mar e era considerada exímia nadadora, morreu afogada quando nadava no Rio Potengi.



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Escrito por marciliomedeiros às 03h38
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INTERSEÇÕES

ELEGIAS DE DUÍNO

 

Primeira Elegia

 

Quem, se eu gritasse, entre as legiões dos Anjos

me ouviria? E mesmo que um deles me tomasse

inesperadamente em seu coração, aniquilar-me-ia

sua existência demasiado forte.    Pois que é o Belo

senão o grau do Terrível que ainda suportamos

e que admiramos porque, impassível, desdenha

destruir-nos?    Todo Anjo é terrível.

E eu me contenho, pois, e reprimo o apelo

do meu soluço obscuro. Ai, quem nos poderia

valer?    Nem Anjos, nem homens

e o intuitivo animal logo adverte

que para nós não há amparo

neste mundo definido.    Resta-nos, quem sabe,

a árvore de alguma colina, que podemos rever

cada dia; resta-nos a rua de ontem

e o apego cotidiano de algum hábito

que se afeiçoou a nós e permaneceu.

E a noite, a noite, quando o vento pleno dos espaços

do mundo desgasta-nos a face – a quem se furtaria ela,

a desejada, ternamente enganosa, sobressalto para o

coração solitário? Será mais leve para os que se amam?

Ai, apenas ocultam eles, um ao outro, seu destino.

Não o sabias?    Arroja o vácuo aprisionado em teus braços

para os espaços que respiramos – talvez os pássaros

sentirão o ar mais dilatado, num vôo mais comovido.

Sim, as primaveras precisavam de ti.

Muitas estrelas queriam ser percebidas.

Do passado profundo afluía uma vaga, ou

quando passavas sob a janela aberta,

uma viola d’amore se abandonava. Tudo isto era missão.

Acaso a cumpriste?    Não estavas sempre

distraído, à espera, como se tudo

anunciasse a amada? (Onde queres abrigá-la.

se grandes e estranhos pensamentos vão e vêm

dentro de ti e, muitas vezes, se demoram nas noites?)

Se a nostalgia vier, porém, canta as amantes;

ainda não é bastante imortal sua celebrada ternura.

Tu quase as invejas – essas abandonadas

que te pareceram tão mais ardentes que as

apaziguadas.    Retoma infinitamente o inesgotável

louvor.    Lembra-te: o herói permanece, sua queda

mesma foi um pretexto para ser – nascimento supremo.

Mas às amantes, retoma-as a natureza no seio

esgotado, como se as forças lhe faltassem

para realizar duas vezes a mesma obra.

Com que fervor lembraste Gaspara Stampa,

cujo exemplo sublime faça enfim pensar uma jovem

qualquer, abandonada pelo amante: por que não sou

como ela?    Frutificarão afinal esses longínquos

sofrimentos?    Não é tempo daqueles que amam libertar-se

do objeto amado e superá-lo, frementes?

Assim a flecha ultrapassa a corda, para ser no vôo

mais do que ela mesma.    Pois em parte alguma se detém.

 

Vozes, vozes.    Ouve, meu coração, como outrora apenas

os santos ouviam, quando o imenso chamado

os erguia do chão; eles porém permaneciam ajoelhados,

os prodigiosos, e nada percebiam,

tão absortos ouviam.    Não que possas suportar

a voz de Deus, longe disso.    Mas ouve essa aragem,

a incessante mensagem que gera o silêncio.

Ergue-se agora, para que ouças, o rumor

dos jovens mortos.    Onde quer que fosses,

nas igrejas de Roma e Nápoles, não ouvias a voz

de seu destino tranqüilo?    Ou inscrições não se ofereciam,

sublimes?    A estela funerária em santa Maria Formosa...

O que pede essa voz?    A ansiada libertação

da aparência de injustiça que às vezes perturba

a agilidade pura de suas almas.

 

É estranho, sem dúvida, não habitar mais a terra,

abandonar os hábitos apenas aprendidos,

às rosas e a outras coisas singularmente promissoras

não atribuir mais o sentido do vir-a-ser humano;

o que se era, entre mãos trêmulas, medrosas,

não mais o ser; abandonar até mesmo o próprio nome

como se abandona um brinquedo partido.

Estranho não desejar mais nossos desejos.    Estranho,

ver no espaço tudo quanto se encadeava, esvoaçar,

desligado.    E o estar-morto é penoso

e quantas tentativas até encontrar em seu seio

um vestígio de eternidade. – Os vivos cometem

o grande erro de distinguir demasiado

bem.    Os Anjos (dizem) muitas vezes não sabem

se caminham entre vivos ou mortos.

Através das duas esferas, todas as idades a corrente

eterna arrasta.    E a ambas domina com seu rumor.

 

Os mortos precoces não precisam de nós, eles

que se desabituam do terrestre, docemente,

como de suave seio maternal.    Mas nós,

ávidos de grandes mistérios, nós que tantas vezes

só através da dor atingimos a feliz transformação, sem eles

poderíamos ser?    Inutilmente foi que outrora, a primeira

música para lamentar Linos, violentou a rigidez da

matéria inerte?    No espaço que ele abandonava, jovem,

quase deus, pela primeira vez o vácuo estremeceu

em vibrações – que hoje nos trazem êxtase, consolo e amparo.

 

 

                                   RAINER MARIA RILKE

                                  

Tradução: Dora Ferreira da Silva

 

Foto: autor desconhecido



Categoria: Interseções
Escrito por marciliomedeiros às 03h25
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INDEPENDENTES, MARGINAIS, ALTERNATIVOS I

INDEPENDENTES, MARGINAIS, ALTERNATIVOS – 1ª Parte

 

 

Década de 80. Havia uma geração nova de escritores que, além de não encontrar espaço de publicação nos meios editoriais e jornalísticos existentes, não queriam apenas a burocracia que marcava a atuação dos círculos literários tradicionais.

Queríamos ganhar a rua, interagir com a cidade, ter contato direto com as pessoas, quer fossem leitores convictos ou apenas simpatizantes da literatura. Queríamos a poesia na vida concreta dos espaços públicos e a vida jorrando na poesia. A idéia era não apenas escrever, mas agitar culturalmente a cidade.

De muitas fontes e iniciativas isoladas, expressões dessa tendência espocavam. Nas esquinas, bares, em locais tradicionalmente relacionados à boemia ou à atividade cultural ou em outros inusitados de Olinda e do Recife, os modos de intervenção que caracterizaram esses poetas começaram a tomar forma e sentido. Existiu uma convergência espontânea, pela similitude de posturas e propostas e que viria a ser reforçada por contatos, ligações, encontros que foram acontecendo entre pessoas, grupos e subgrupos.

A atuação ocorria com declamações de poesia, recitais-relâmpago, happenings; lançamentos de livros mimeografados, xerografados ou outros meios artesanais, ou prensados em gráficas e bancados pelos próprios autores; e edição de jornais literários. Os trabalhos eram vendidos em bares, portas de teatro e cinema etc., ocasiões em que se costumava dizer poesia, como estratégia de chamar a atenção e conquistar o público presente.

Esses escritores passaram a ser conhecidos por independentes, marginais, alternativos e daí sua literatura e seus trabalhos impressos serem chamados de poesia independente e jornais alternativos e independentes.

O centro físico ou quartel-general de todas as presenças era a Livraria Livro 7 e entorno, formado pelos bares da Rua Sete de Setembro e do Beco da Fome. Rodava-se a cidade, espalhava-se pelos cantos e recantos, entretanto sempre voltava-se ao mesmo ponto irradiador. 

Desse período, conheci inicialmente o Jornal Poemar, editado por Mônica Franco, em Olinda, e em que publiquei, em 1982, meu primeiro poema. O ensaio inaugural no sentido de fazer algo parecido foi a impressão de um tablóide mimeografado, que rodei num equipamento conseguido sem muita cerimônia e sem conhecer ninguém de uma escola pública. Foi um pequeno delito consentido, pela arte.

Em maio desse ano, sai o número um do Jornal Lítero-Pessimista, de Francisco Espinhara e equipe, que trazia na capa O Morcego, de Augusto dos Anjos.

Neste mesmo ano, lancei o Jornal Vaga-Lume, desta vez produzido em offset. No número seguinte, juntarem-se à iniciativa Ângela Fernanda Belfort e Flávio Chaves. Lá estavam textos de Andréa Mota, Alberto Cunha Melo, Dione Barreto, Marcelo Mário Melo, Vernaide Wanderley, Manuzé, Wilton Lima, Jairo Cabral, Celina de Holanda, Hilton Lacerda (roteirista de Amarelo Manga e diretor de Cartola – Música para os Olhos), do artista plástico Ramos Melo e gravura do hoje cantor Gê Domingues. Continha, ainda, duas páginas dedicadas a Clarice Lispector, em uma época que as pessoas, no Recife, pareciam não dar muita importância a ela ou considerá-la completamente dissociada da história da cidade, logo ela que viveu e tanto amou o Recife. Basta ler suas crônicas e cartas para saber disso.

Estávamos no limiar da redemocratização do país e a referência política, no jornal, ficava por conta de uma charge que dizia: - mãe, o que é preciso para ser enquadrado na lei de segurança nacional? – basta dizer alguma verdade, filho. – E para ser corrupto? – É só ir morar em Brasília. Havia muitos reflexos dos anos mais duros desse período na minha geração, que nasceu e cresceu na ditadura militar.

Para divulgar o jornal, fui procurar Alberto da Cunha Melo, no Arquivo Público do Estado e que mantinha a coluna Commercio Cultural no Jornal do Commercio. Foi assim que o conheci.

Um pouco depois, surgiu o Ulalume, de muitos editores, entre eles, Antonio de Campos, Ângelo Monteiro, Paulo Gustavo e Arnaldo Afonso (hoje da Edições Bagaço e que, por gentileza e liberalidade, me deu de presente a capa de meu segundo livro).

Havia ainda os jornais Mandacaru, de Pedro do Amaral Costa, o Pro-Texto, de Arnaldo Tobias, o Contágil, de Dione Barreto e Manuzé, e outros tantos.



Categoria: Vida Literária
Escrito por marciliomedeiros às 03h13
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INDEPENDENTES, MARGINAIS, ALTERNATIVOS II

INDEPENDENTES, MARGINAIS, ALTERNATIVOS – 2ª Parte

 

Em 1984, editamos, Flávio Chaves, Sidney Rocha e eu, o Jornal Prólogo. Neste ano, lancei, em edição própria, meu primeiro livro, na Livro 7. E houve declamação de poesia, claro! Lembro-me, especialmente, da perfomance cheia de verve e irreverência de Xico Sá.

No mês de abril, ocorreu, no Gabinete Português de Leitura, América Erótica e Virgem, uma exposição de posters-poemas, da qual não participei, mas estive na abertura.

Em uma conversa etílico-literária, das muitas que havia por aquela época, formada por Eduardo Martins, Cida Pedrosa, Chico Espinhara, talvez Fátima Ferreira e Hector Pellizzi, ouvíamos Eduardo falar, com empolgação e orgulho, de uma crítica que César Leal havia feito sobre a poesia dele ou do grupo, não recordo bem. A opinião de César e o espaço que ele abriu eram muitos importantes naquele momento. A propósito, ele foi meu professor.  

No Festival de Inverno da UNICAP, realizamos o espetáculo Canção do Momento, com poemas e músicas nossas, que depois teve mais algumas apresentações na Sala Clenio Wanderley, da Casa da Cultura. Conheci muita gente naqueles saudosos festivais e de onde havia saído, no ano anterior, a I Caminhada Poética do Recife, com um grande público percorrendo as ruas da cidade, portando velas e dizendo poesia em cima de um caminhão de som. Impossível esquecer Dione Barreto falando os versos: eu sou mulher, antiga besta de um aborto mal feito... A Caminhada contou com o apoio da UNICAP e da FUNDARPE, no entanto tinha muito do espírito daquele jeito de viver e divulgar poesia dos independentes. Em 1985, acontece a I Chuva Poética, com palco montado na Praia de Boa Viagem e poemas sendo arremessados, pelos ares, de um helicóptero. Audálio Alves publica matéria, em sua coluna do Jornal de Letras, do Rio de Janeiro, falando da nova geração de poetas pernambucanos e cita como exemplo um poema meu.

Por esse tempo, houve a primeira eleição da União Brasileira de Escritores – Secção Pernambuco - UBE-PE. Lembro-me de uma conversa na Praça do Sebo (Rua da Roda) sobre as articulações para formação da chapa única e Manuzé dizendo: acho que você podia estar nela... ao que eu contrapus: não sou filiado ainda e conheço pouca gente. A intenção era aglutinar nomes e tendências variadas e, em certa medida, isso foi obtido com uma chapa mista de novos e velhos escritores, com o perdão dos rótulos.

Entrei na UBE-PE em 1986, com proposta apresentada por Dione Barreto, que viria a ocupar, depois, a presidência da entidade.

O fim forçado das colunas Commercio Cultural, de Alberto Cunha Melo, no Jornal do Commercio, e Poliedro, de Paulo Azevedo Chaves, no Diário de Pernambuco, foi um duro golpe para nós.

Em dezembro de 1986, é organizada uma homenagem a Mauro Mota, que não havia muito que falecera, e coube a mim dizer o poema Pastoral.

Já na universidade, fiz mais um jornal, chamado A Boca, com o pessoal do Diretório Acadêmico. Em 1986-87, quis dar prosseguimento a edição de tablóides literários com Mytho e Lúbrico, que nunca saíram. Este último era um projeto com o escritor e jornalista Raimundo de Moraes, logomarca e arte de Manuzé e que recebeu apoio do jornalista Paulo Azevedo Chaves, que, aliás, foi o primeiro a publicar poesia minha na grande imprensa. O projeto estava todo pronto, mas desistimos em função da falta de patrocínio.

Na eleição da UBE-PE para o biênio 1987-88, há um cisma entre os independentes, parte apoiando Nagib Jorge Neto e outra, Marcus Accioly. Tinha amigos nos dois grupos. Como queria participar da vida da entidade e fui contatado pelo segundo grupo, juntei-me a ele.

Penso que já fazia algum tempo que não éramos mais tão independentes quanto julgávamos ou queríamos crer.

Nagib foi eleito presidente. Como minha intenção era colaborar e não havia antagonismo intrínseco com as pessoas do grupo, dirigi, para a UBE-PE, o espetáculo que homenageou Carlos Pena Filho naquele ano e que teve lugar no MAMAM.

Reunimos escritores e artistas plásticos para uma homenagem ao Movimento Dadaísta, com um espetáculo completamente anárquico, à frente Paulo Brusky. Não lembro bem o ano disso.

Em 1988, a UBE-PE organiza o I Encontro de Escritores do Nordeste, no Cineteatro da Fundação Joaquim Nabuco, do Derby. Em 1989,  foi realizada a exposição A Fotografia e seu Poema, com fotos de Flavio Azevedo. Os nomes dos poetas no cartaz do evento foram dispostos de forma que formasse um soneto:

 

Arnaldo Tobias, Carlos Laerte, Carlos Senna,

Celina de Holanda, Ceci Alencar,

Cida Pedrosa, Domingos Alexandre,

Eduardo Martins e Everardo Veras.

 

Geraldino Brasil, Héctor Pellizzi,

Iran Gama, Jailson Marroquim, José Torres,

Juhareiz Correya, Lenice Gomes,

Manoel Constantino e Marcilio Medeiros.

 

Marconi Notaro, Maria da Paz Ribeiro Dantas,

Paulo Chaves, Pencas, Maria de Lourdes Hortas,

Raimundo de Moraes e Samuca Santos.

 

Selma Vasconcelos, Taiz Fernandes, Tarcisio Laureano,

Vernaide Wanderley, Vital Correa de Araújo,

Wilson Freire e Wilson Vilar.

 

Para mim, esses foram os momentos finais daquela fase.

Em 2000, Francisco Espinhara lançou o livro Movimento de Escritores Independentes de Pernambuco 1980/1988, que documentou muito daquele período em Pernambuco, com relato, fotos e pequena coletânea. Nunca vi o livro, mas fiquei sabendo que estou lá em foto e poema dos primeiros tempos - poema, é bem provável, de qualidade bastante sofrível.

No Festival Recifense de Poesia de 2006, encontrei Chico e perguntei se ainda havia algum exemplar que eu pudesse adquirir. Ele informou que não. Trouxe para casa Sangue Ruim, um de seus últimos livros. Foi a última vez que o vi. Hoje, ele deve estar conversando com Augusto do Anjos ou Baudelaire.



Categoria: Vida Literária
Escrito por marciliomedeiros às 03h12
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