Vida Literária por Marcilio Medeiros


INTERSEÇÕES

www.casaruibarbosa.gov.br

 

AUTO-RETRATO

 

                   Lúcio Cardoso

 

A fronte onde uma veia denuncia a vida concentrada

pensamentos breves, desejos que se avolumam ao correr das horas graves,

uma centelha — e o mistério sempre renovado da música que nasce.

Os olhos, alvo onde se fundem os elementos de discórdia,

como o azul e o negro sobre os mares abertos,

como o riso e o pranto nos delírios do amor.

Sombras, ainda sombras dolentes ao longo das narinas que fremem,

os lábios que se abrem ávidos para os turvos vinhos da terra,

para a memória maldita dos beijos sem resposta.

E de tantas sombras que se misturam nesta face humana,

qualquer coisa que lhe empresta um ar alucinado,

como se uma força maior, de suprema distância,

tentasse arrancar das trevas o anjo adormecido.

 



Categoria: Interseções
Escrito por marciliomedeiros às 13h16
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DE CLARICE PARA LÚCIO CARDOSO

Carta póstuma de Clarice Lispector para Lúcio Cardoso

 

Lúcio, estou com saudade de você, corcel de fogo que você era, sem limite para o seu galope.

 

Saudade eu tenho sempre. Mas, saudade tristíssima, duas vezes.

 

A primeira quando você repentinamente adoeceu, em plena vida, você que era vida. Não morreu da doença. Continuou vivendo, porém era homem que não escrevia mais, ele que até então escrevera por uma compulsão eterna gloriosa. E depois da doença, não falava mais, ele que já me dissera das coisas mais inspiradas que ouvidos humanos poderiam ouvir. E ficara com o lado direito todo paralisado. Mais tarde usou a mão esquerda para pintar: o poder criativo nele não cessara.

 

Mudo ou grunhindo, só os olhos se estrelavam, eles que sempre haviam faiscado de um brilho intenso, fascinante e um pouco diabólico.

 

De sua doença restaria também o sorriso: esse homem que sorria para aquilo que o matava. Foi homem de se arriscar e de pagar o alto preço do jogo. Passou a transportar para as telas, com a mão esquerda (que, no entanto, era incapaz de escrever, só de pintar) transparência e luzes e levezas que antes ele não parecia ter conhecido e ter sido iluminado por elas: tenho um quadro, de antes da doença, que é quase totalmente negro. A luz lhe viera depois das trevas da doença.

 

A segunda saudade já foi perto do fim.

 

Algumas pessoas amigas dele estavam na ante-sala de seu quarto no hospital e a maioria não se sentiu com força de sofrer ainda mais ao vê-lo imóvel, em estado de coma.

 

Entrei no quarto e vi o Cristo morto. Seu rosto estava esverdeado como um personagem de El Greco. Havia a Beleza em seus traços.

 

Antes, mudo, ele pelo menos me ouvia. E agora não ouviria nem que eu gritasse que ele fora a pessoa mais importante da minha vida durante a minha adolescência. Naquela época ele me ensinava como se conhecem as pessoas atrás das máscaras, ensinava o melhor modo de olhar a lua. Foi Lúcio que me transformou em "mineira": ganhei diploma e conheço os maneirismos que amo nos mineiros.

 

Não fui ao velório, nem ao enterro, nem à missa porque havia dentro de mim silêncio demais. Naqueles dias eu estava só, não podia ver gente: eu vira a morte.

 

Estou me lembrando de coisas. Misturo tudo. Ora ouço ele me garantir que eu não tivesse medo do futuro porque eu era um ser com a chama da vida. Ora vejo-nos alegres na rua comendo pipocas. Ora vejo-o encontrando-se comigo na ABBR, onde eu recuperava os movimentos de minha mão queimada e onde Lúcio, Pedro e Míriam Bloch chamavam-no à vida. Na ABBR caímos um nos braços do outro.

 

Lúcio e eu sempre nos admitimos: ele com sua vida misteriosa e secreta, eu com o que ele chamava de "vida apaixonante". Em tantas coisas éramos tão fantásticos que, se não houvesse a impossibilidade, quem sabe teríamos nos casado.

 

Helena Cardoso, você que é uma escritora fina e que sabe pegar numa asa de borboleta sem quebrá-la, você que é irmã de Lúcio para todo o sempre, por que não escreve um livro sobre Lúcio? Você contaria de seus anseios e alegrias, de suas angústias profundas, de sua luta com Deus, de suas fugas para o humano, para os caminhos do Bem e do Mal. Você, Helena, sofreu com Lúcio e por isso mesmo mais o amou.

 

Enquanto escrevo levanto de vez em quando os olhos e contemplo a caixinha de música antiga que Lúcio me deu de presente: tocava como em cravo a Pour Élise. Tanto ouvi que a mola partiu. A caixinha de música está muda? Não. Assim como Lúcio não está morto dentro de mim.

 

Lúcio, estou com saudade de você, corcel de fogo que você era, sem limite para o seu galope.

 

Saudade eu tenho sempre. Mas, saudade tristíssima, duas vezes.

 

A primeira quando você repentinamente adoeceu, em plena vida, você que era vida. Não morreu da doença. Continuou vivendo, porém era homem que não escrevia mais, ele que até então escrevera por uma compulsão eterna gloriosa. E depois da doença, não falava mais, ele que já me dissera das coisas mais inspiradas que ouvidos humanos poderiam ouvir. E ficara com o lado direito todo paralisado. Mais tarde usou a mão esquerda para pintar: o poder criativo nele não cessara.

 

Mudo ou grunhindo, só os olhos se estrelavam, eles que sempre haviam faiscado de um brilho intenso, fascinante e um pouco diabólico.

 

De sua doença restaria também o sorriso: esse homem que sorria para aquilo que o matava. Foi homem de se arriscar e de pagar o alto preço do jogo. Passou a transportar para as telas, com a mão esquerda (que, no entanto, era incapaz de escrever, só de pintar) transparência e luzes e levezas que antes ele não parecia ter conhecido e ter sido iluminado por elas: tenho um quadro, de antes da doença, que é quase totalmente negro. A luz lhe viera depois das trevas da doença.

 

A segunda saudade já foi perto do fim.

 

Algumas pessoas amigas dele estavam na ante-sala de seu quarto no hospital e a maioria não se sentiu com força de sofrer ainda mais ao vê-lo imóvel, em estado de coma.

 

Entrei no quarto e vi o Cristo morto. Seu rosto estava esverdeado como um personagem de El Greco. Havia a Beleza em seus traços.

 

Antes, mudo, ele pelo menos me ouvia. E agora não ouviria nem que eu gritasse que ele fora a pessoa mais importante da minha vida durante a minha adolescência. Naquela época ele me ensinava como se conhecem as pessoas atrás das máscaras, ensinava o melhor modo de olhar a lua. Foi Lúcio que me transformou em "mineira": ganhei diploma e conheço os maneirismos que amo nos mineiros.

 

Não fui ao velório, nem ao enterro, nem à missa porque havia dentro de mim silêncio demais. Naqueles dias eu estava só, não podia ver gente: eu vira a morte.

 

Estou me lembrando de coisas. Misturo tudo. Ora ouço ele me garantir que eu não tivesse medo do futuro porque eu era um ser com a chama da vida. Ora vejo-nos alegres na rua comendo pipocas. Ora vejo-o encontrando-se comigo na ABBR, onde eu recuperava os movimentos de minha mão queimada e onde Lúcio, Pedro e Míriam Bloch chamavam-no à vida. Na ABBR caímos um nos braços do outro.

 

Lúcio e eu sempre nos admitimos: ele com sua vida misteriosa e secreta, eu com o que ele chamava de "vida apaixonante". Em tantas coisas éramos tão fantásticos que, se não houvesse a impossibilidade, quem sabe teríamos nos casado.

 

Helena Cardoso, você que é uma escritora fina e que sabe pegar numa asa de borboleta sem quebrá-la, você que é irmã de Lúcio para todo o sempre, por que não escreve um livro sobre Lúcio? Você contaria de seus anseios e alegrias, de suas angústias profundas, de sua luta com Deus, de suas fugas para o humano, para os caminhos do Bem e do Mal. Você, Helena, sofreu com Lúcio e por isso mesmo mais o amou.

 

Enquanto escrevo levanto de vez em quando os olhos e contemplo a caixinha de música antiga que Lúcio me deu de presente: tocava como em cravo a Pour Élise. Tanto ouvi que a mola partiu. A caixinha de música está muda? Não. Assim como Lúcio não está morto dentro de mim.

 

Clarice Lispector

do A Descoberta do Mundo.

Publicado originalmente em 11 de janeiro de 1969, no Jornal do Brasil.

 

www.geocities.com

 



Categoria: Interseções
Escrito por marciliomedeiros às 13h14
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A CIGARRA

Saíram dois poemas meus na edição deste mês da Revista A Cigarra, dirigida pela Escritora Jurema Barreto de Souza.

 

A Cigarra surgiu em maio de 1982 na Faculdade de Letras da Fundação Santo André, inicialmente como jornal literário, impresso em mimeógrafo.

 

Ao longo do tempo, mudou o sistema de impressão e formato, passando a ser reproduzido em xerox e, depois, em off-set. Em 1995, virou revista.

 

Conta, também, com uma versão digital.

 

Pelo tempo de permanência da publicação, é possível atestar o trabalho incansável em prol da literatura que Jurema tem feito. Parabéns.

 

Acesse A Cigarra.



Categoria: Vida Literária
Escrito por marciliomedeiros às 23h44
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Ana Cristina Cesar

incomunidade.home.sapo.pt

Ana Cristina Cesar

 

 

Corrupta com requintes me deixa o teu amor.

 

***

 

Anônimo

 

Sou linda; quando no cinema você roça

o ombro em mim aquece, escorre, já não sei mais

quem desejo, que me assa viva, comendo

coalhada ou atenta ao buço deles, que ternura

inspira aquele gordo aqui, aquele outro ali, no

cinema é escuro e a tela não importa, só o lado,

o quente lateral, o mínimo pavio. A portadora deste

sabe onde me encontro até de olhos fechados;

falo pouco; encontre; esquina de Concentração com Difusão,

lado esquerdo de quem vem, jornal na mão, discreta.

 

***

 

Casablanca

 

Te acalma, minha loucura!

Veste galochas nos teus cílios tontos e habitados!

Este som de serra de afiar facas

não chegará nem perto do teu canteiro de taquicardías…

 

Estas molas a gemer no quarto ao lado

Roberto Carlos a gemer nas curvas da Bahia

O cheiro inebriante dos cabelos na fila em frente no cinema…

 

As chaminés espumam pros meus olhos

As hélices do adeus despertam pros meus olhos

Os tamancos e os sinos me acordam depressa na

madrugada feita de binóculos de gávea

e chuveirinhos de bidê que escuto rígida nos lençóis de pano

 

 

Ana C.



Categoria: Interseções
Escrito por marciliomedeiros às 16h04
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INSTITUTO RICARDO BRENNAND: SEIS ANOS

reprodução

Vista de Itamaracá (1637), de Frans Post,

considerada a pintura feita por um pintor profissional

mais antiga das Américas

 

 

Instituto Ricardo Brennand: seis anos

 

O Instituto Ricardo Brennand (IRB), no Recife, comemora, hoje, seis anos de existência.

 

Com a aquisição de mais duas telas de Frans Post (1612-1680), pintor trazido por Maurício de Nassau para Pernambuco durante a ocupação holandesa, o Instituto passa a ter 20 quadros do artista, a maior coleção privada ou pública de suas obras.

 

Os novos quadros são conhecidos como Engenho (1661) e Paisagem de Várzea (da mesma época, mas não datado).

 

Nesses seis anos, foram mais de um milhão de visitantes, entre eles 300 mil alunos de escolas municipais e estaduais.

 

overmundo. licença creative commons

Instituto Ricardo Brennand



Escrito por marciliomedeiros às 14h57
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80 ANOS DE MACUNAÍMA

reprodução
 
O batizado de Macunaíma - Tarsila do Amaral
 

Macunaíma: O Herói sem Nenhum Caráter foi lançado em 1928 pelo escritor modernista Mário de Andrade (1893-1945), que já era autor de Paulicéia Desvairada e a novela Amar, Verbo Intransitivo.

Veja na matéria da Folha.

Conheça mais da vida de Mário de Andrade.



Escrito por marciliomedeiros às 00h25
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ALICE RUIZ

depois que um corpo

comporta

outro corpo

nenhum coração

suporta

o pouco

 

         ALICE RUIZ

 

 

Do livro Pelos Pelos, lançado pela Brasiliense, na Coleção Cantadas Literárias.

Andrômeda (1885), de Rodin



Escrito por marciliomedeiros às 23h05
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PRECE

PRECE

 

                 Marcilio Medeiros

 

Estou hoje prostrado

em elevação e pecado.

 

Santa Teresa me conduz

ao gozo

porque ela foi só

aspiração.

 

Chegarei ao ponto

(em cima ou em baixo?)

de sangramento e purificação?

 

wikimedia commons

 

O Êxtase de Santa Teresa, de Gian Lorenzo Bernini (1652)

Igreja Santa Maria della Vittoria, Roma



Categoria: Fala, poesia!
Escrito por marciliomedeiros às 23h47
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MANIFESTO DE ARTE PORNÔ

www.radio.usp.br

 

O jornal O Cometa Itabirano, em seu número 69, publicou o manifesto do Movimento pela Arte Pornô.

 

Não sei a data que a publicação saiu, mas o manifesto é de maio de 1980.

 

Será que o 69 foi coincidência?

 

 

MOVIMENTO DE ARTE PORNÔ

(manifesto feito nas coxas)

 

* Antes de dominar a palavra escrita, o homem já desenhava sacanagem nas paredes das cavernas.

 

* Masturbação literária não gera porra nenhuma.

 

* Arte é penetração e gozo.

 

* Trepar, parir e criar fazem parte de um mesmo processo.

 

* O Pornopoema vai pôr no poema.

 

* Os caras do poder baixam o pau com medo de baixar as calças... e acabar levando pau.

 

* A rapaziada tá cagando pra Literatura Oficial.

 

* Pela suruba literária: um processo concreto da práxis marginal na sacanagem tropical e o escambau.

 

* O Poema Pornô taí prá abrir as pernas e as idéias.

 

* Viva o BUM da poesia em toda arte, em toda parte.

 

 

Cairo Assis Trindade (RS), Leila Míccolis (RJ), Ota (RJ), Teresa Jardim (RJ), Claufe (RJ), Glauco Mattoso (SP), Ulisses Tavares (SP), Sandra Terra (RJ), Bráulio Tavares (PB), PX Silveira (GO), Tanussi Cardoso (RJ), Reca Poletti (SP), Antônio Carlos Lucena | Touchê (SP), Franklin Jorge (RN), Cecília (MG), Aclyse de Mattos (MT), Paulo Veras (CE), Denise Henriques Assis Trindade (RS), Alberto Harrigan (ES), HUdinilson Jr. (SP), Mano Melo (CE), Flávio Nascimento (PE), Cynthia Dorneles (RJ), Eduardo Kac (RJ).



Escrito por marciliomedeiros às 14h21
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CLARICE LISPECTOR

CLARICE LISPECTOR

 

 

"Dá-me a tua mão desconhecida que a vida está me doendo e eu não sei como falar. A realidade é delicada demais, só a realidade é delicada, minha irrealidade e minha imaginação são mais pesadas."

 

"Não entendo. Isso é tão vasto que ultrapassa qualquer entender. Entender é sempre limitado. Mas não entender pode não ter fronteiras. Sinto que sou muito mais completa quando não entendo. Não entender, do modo como falo, é um dom. Não entender, mas não como um simples de espírito. O bom é ser inteligente e não entender. É uma benção estranha, como ter loucura sem ser doida. É um desinteresse manso, é uma doçura de burrice. Só que de vez em quando vem a inquietação: quero entender um pouco. Não demais: mas pelo menos entender que não entendo."

 



Categoria: Interseções
Escrito por marciliomedeiros às 21h48
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RÁDIO ARINFO

Ontem, no Programa Poesias y Algo Más, da Rádio Arinfo, da Argentina, transmitida pela web, foi veiculado o meu poema Partida.

O texto foi enviado pela poeta Rose de Castro, que o havia gravado e divulgado no Youtube.

O programa vai ao ar sempre aos sábados, no horário das 20 às 21 horas. Conheçam a rádio em http://www.arinfo.com.ar/



Escrito por marciliomedeiros às 21h32
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