Vida Literária por Marcilio Medeiros


MARCILIO MEDEIROS

reprodução

Boca da Mona Lisa

 

FASE ORAL

 

Marcilio Medeiros

 

chupa

fuma

tritura

 

devorando fala

traça automática

 

açúcar e gesso

endurecê-lo



Categoria: Fala, poesia!
Escrito por marciliomedeiros às 18h32
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NAÇÃO ZUMBI

  

 

Vídeo dirigido por Ricardo Carelli

 

 

BOSSA NOSTRA

 

Composição: Jorge du Peixe

 

Ninguém quer saber

O gosto do sangue

Mas o vermelho

Ainda é a cor que incita a fome

Depende da hora e da cor

Depende da hora,

Da hora, da cor e do cheiro

Cada cor tem o seu cheiro

Cada hora lança sua dor

E dessa insustentável leveza de ser

Eu gosto mesmo é de vida real

 

Eu levei

Minha alma pra passear

Eu levei

Minha alma pra passear

 

Não me distancio muito de mim
E quando saio não vou longe

fico sempre por perto

Depende da hora e da cor

Depende da hora,

Da hora, da cor e do cheiro

Cada cor tem o seu cheiro

Cada hora lança sua dor

E dessa insustentável leveza de ser

Eu gosto mesmo é de vida real

 

Eu levei

Minha alma pra passear

Eu levei

Minha alma pra passear

 



Escrito por marciliomedeiros às 17h59
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LOUISE BOGAN

reprodução

 

PARA UM AMANTE DEFUNTO

 

Louise Bogan

 

O breu é sacudido a partir

Do claro, feito cabelos

Sobre um ombro.

Estou só,

 

Quatro anos mais velha;

Como as cadeiras e as paredes

Que certa vez vi luzindo,

Você a meu lado. Para eu acordar

Nunca desse jeito, não importa o que veio ou foi desfeito.

 

O caule cresce, o ano pulsa ao vento.

Maçãs chegam, e o mês em suas quedas.

A casca espalha, as raízes apertam.

Embora hoje seja a última,

E amanhã todas,

Não é da tua conta.

 

Que posso não lembrar,

Não é da conta.

Não vou estar contigo de novo.

O que sabemos, mesmo agora

Deve espalhar

E puir, e vazar

Como areia ao vento.

 

Morreste já faz tempo

E tens menos de desejar

A amada do amado;

E eu tenho vida—esse velho motivo

De esperar pelo que vem,

Largar o que é passado.

 

Tradução de Ruy Vasconcelos



Escrito por marciliomedeiros às 15h59
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EDNA ST. VINCENT MILLAY

reprodução

 

QUE LÁBIOS JÁ BEIJEI, ESQUECI QUANDO

 

Edna St. Vincent Millay

 

Que lábios já beijei, esqueci quando

e porquê, e que braços sob a minha

cabeça até ser dia; a chuva alinha

os fantasmas que rufam, suspirando,

no espelho, respostas esperando,

e no meu peito uma dor calma aninha

rapazes que não lembro e a mim sozinha

à meia-noite já não vêm chorando.

No inverno a solitária árvore assim

nem sabe que aves foram uma a uma,

sabe os ramos mais mudos: nem sei quais

amores vindos, idos, eu resuma,

só sei que o verão cantou em mim

breve momento e em mim não canta mais.

 

Tradução de Vasco Graça Moura



Escrito por marciliomedeiros às 14h59
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ANNE SEXTON

reprodução

 

A VICIADA

 

 Anne Sexton

 

Patroa da morte,

patroa do sono,

com cápsulas na mão toda noite.

Oito por vez, de doces vidros farmacêuticos.

Faço os preparativos para uma jornada de miligramas.

Sou a rainha dessa condição.

Sou uma mulher viajada.

E agora me chamam de viciada.

Agora me perguntam por quê.

Quê?

 

Não sabem que eu prometi morrer!

Estou praticando.

Só mantendo a forma.

As pílulas são uma mãe, melhorada,

de todas as cores e bom como bala azedinha.

Estou fazendo a dieta da morte.

 

Sim, admito.

Tornou-se um certo hábito.

Oito por vez, no olho,

enlevada pelo rosa, o laranja,

o verde e o boa-noite branco.

Estou virando meio combinação

química.

É isso!

 

Meu estoque

de comprimidos

tem que durar anos e anos.

Gosto mais deles que de mim.

Teimosos do inferno, não me deixam.

É tipo um casamento.

Tipo uma guerra e eu jogo bombas pra dentro

de mim.

 

Sim

eu tento

me matar em pequenas porções,

ocupação inócua.

Na verdade, estou amarrada nela.

Mas lembre que eu não faço barulho demais.

E, francamente, ninguém precisa me arrastar,

não fico por aí enrolada nos lençóis.

Sou um docinho na minha camisolinha amarela.

Engolindo minhas oito porções de uma vez,

e na ordem como

se postasse as mãos

ou no sacramento negro.

 

É uma cerimônia

mas, como em qualquer esporte,

cheia de regras.

É como um jogo de tênis com música

e a minha boca sempre pega a bola.

Depois eu jazo no meu altar

elevada pelos oito beijos químicos.

 

E que alívio é isso:

dois rosa, dois laranja,

dois verdes e dois boa-noites brancos.

Fuein-fuein-fuein-fuein-fuein.

Agora bateu.

Agora eu chumbei.

 

Tradução de Lavínia



Escrito por marciliomedeiros às 14h36
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VAN GOGH

wikimedia

 

As Oliveiras (1889), Vincent van Gogh



Escrito por marciliomedeiros às 00h29
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NOTAS

Projeto estuda impacto da literatura brasileira em países do exterior

O projeto Conexões, que faz o mapeamento internacional da literatura brasileira, terá suas primeiras conclusões divulgadas na Universidade de Salamanca, na Espanha, durante simpósio que acontece no próximo dia 21. Dentre as primeiras informações, a de que apenas 7% do mercado editorial da Alemanha é voltado para tradução de livros brasileiros e a que os Estados Unidos são os maiores estudiosos de nossa literatura. Outros pontos ressaltados são a necessidade de investimentos governamentais para que se facilite a tradução para outras línguas e a repercussão de autores pouco estudados no Brasil, como José Mauro de Vasconcelos, de Meu Pé de Laranja Lima, adotado em escolas nos países do Leste Europeu.

Site reúne sugestões para encontrar livros online

O site EduChoices reúne 25 sugestões de bibliotecas online onde o usuário encontra livros que podem ser consultados gratuitamente. Na classificação de seus idealizadores, o melhor acervo pode ser encontrado na The Online Books Page, que disponibiliza mais de 30 mil títulos na língua inglesa. Além dela, destaque também para o Projeto Gutenberg, com mais de 100 mil títulos disponíveis, a Read Print, voltada para estudantes e professores, a Chest of Books, especializada em livros de não-ficção e a Lookybook, especializada em livros infantis.

Fonte: Boletim PNLL nº 129



Escrito por marciliomedeiros às 00h27
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HILDA HILST

 eder accorsi

Hilda Hilst

 

ALCOÓLICAS

 

I

 

É crua a vida. Alça de tripa e metal.

Nela despenco: pedra mórula ferida.

É crua e dura a vida. Como um naco de víbora.

Como-a no livor da língua

Tinta, lavo-te os antebraços, Vida, lavo-me

No estreito-pouco

Do meu corpo, lavo as vigas dos ossos, minha vida

Tua unha plúmbea, meu casaco rosso.

E perambulamos de coturno pela rua

Rubras, góticas, altas de corpo e copos.

A vida é crua. Faminta como o bico dos corvos.

E pode ser tão generosa e mítica: arroio, lágrima

Olho d'água, bebida. A Vida é líquida.



Categoria: Interseções
Escrito por marciliomedeiros às 15h54
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NÉLIDA PIÑON

 

Nélida Piñon (1937-)

“Há um século devotamos inabalável amor à língua lusa. Esta língua que os bárbaros, os necessitados, os poetas, os navegantes, os funâmbulos, seres da ilusão, ígneos e intensos, engendraram para corresponder às carências dos homens.
Afinal, a língua é a alegria dos homens. Nela repousa a poesia do desejo, a melancolia dos gritos primevos, o advento das estações, a exaltação do fino mistério soprado, quem sabe, pelo próprio deus.
Falar, escrever, pensar, alcançar as fendas onde a metáfora pousa solitária, circunscreve-nos ao picadeiro dos homens, ao galeão dos condenados, aos salões galardoados, às terras onde se trava a batalha do verbo e das exegeses.
Como filhos da pátria da língu, de um idioma composto com sobras latinas, gregas, asiáticas, africanas, uma mistura que por onde esteve semeou rastros míticos, pronunciamos suas palavras com unção e ira, captamos-lhe o cintilar de seu sensível timbre.
Esta língua portuguesa, de feição arqueológica, perambula agora pelo coração do Brasil. O corpo sagrado do seu enigma resguarda-se nos descampados e nos grotões, acata os presságios das bruxas, pede emprestado ao vizinho farinha e sentimentos íntimos.”
Trecho do discurso A pátria do verbo, feito no centenário da ABL



Escrito por marciliomedeiros às 19h53
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HILDA DOOLITTLE

reprodução

 

PRÍAPO: Guardador-de-Pomares

 

Hilda Doolittle

 

Vi a primeira pêra

A cair.

O enxame amarelo, listrado de ouro,

Em busca de mel,

Não foi mais veloz do que eu

(Livra-nos da beleza!)

E caí prostrada,

Chorando.

Tu, que nos flagelaste com as flores,

Livra-nos da beleza

Das árvores de fruto!

 

As que buscavam o mel

Não pararam.

O ar ressoava com o seu canto

E só eu me prostrava.

 

Ó deus do pomar,

Talhado em tosco,

Venho trazer-te uma oferenda;

Tu, o que não é belo

(Filho do deus),

Livra-nos da beleza!

 

As avelãs caídas,

Despidas há pouco do invólucro verde,

Os cachos vermelho-púrpura

De bagos

Gotejando vinho,

Romãs já fendidas,

E figos mirrados,

E marmelos intactos,

Eis a minha oferenda.

 

Tradução de João Ferreira Duarte



Escrito por marciliomedeiros às 15h19
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OSWALD DE ANDRADE

reprodução

Retrato de Oswald de Andrade (1922), de Tarsila do Amaral

 

 

VÍCIO NA FALA

 

Oswald de Andrade

 

Para dizerem milho dizem mio

Para melhor dizem mió

Para pior pió

Para telha dizem teia

Para telhado dizem teiado

E vão fazendo telhados

 



Escrito por marciliomedeiros às 19h06
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