Vida Literária por Marcilio Medeiros

Interseções



 
 

PAUL CELAN

 

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DISTÂNCIAS

 

            Paul Celan

 

Olho no olho, no frio, 

deixa-nos também começar assim: 

juntos

deixa-nos respirar o véu 

que nos esconde um do outro, 

quando a noite se dispõe a medir 

o que ainda falta chegar 

de cada forma que ela toma 

para cada forma 

que ela a nós dois emprestou.  

 

Tradução de Claudia Cavalcanti

 



Escrito por marciliomedeiros às 16h20
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DENISE LEVERTOV

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FALANDO À MÁGOA

 

               Denise Levertov

 

Ah, Mágoa, não te devo tratar

como um cão sem dono

que vem à porta dos fundos

pruma migalha, prum osso descarnado.

Tenho que te dar crédito.

 

Devo adular tua entrada

em casa e te oferecer

teu próprio canto,

um capacho gasto pra jazer,

teu depósito de água.

 

Tu pensas que não sei que tens vivido

sob minha soleira.

Tanto esperaste por teu lugar refeito

antes do inverno chegar. Precisas

do teu nome,

coleira, crachá. Precisas do direito

de advertir intrusos,

de considerar

tua a minha casa

e a mim tua dona

e tu minha

cachorra.

 

Tradução de Ruy Vasconcelos

 



Escrito por marciliomedeiros às 17h01
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EDITH SITWELL

 

CÂNTICO DE DIDO

 

                 Edith Sitwell

 

O meu Sol da Morte é ao invés para as profundas

O que o Grande Sol Celeste é para as alturas

Em calor violento

Quando Sirius se vem deitar aos pés do Sol.

O meu Sol da Morte é só profundidade, o sol celeste

Altura só, e os ares do mundo inteiro jazem entre

Esses sóis

Agora apenas o Cão se senta ao pé do meu esquife

Em que jazo ardendo por meu coração. Os cinco cães dos sentidos

Já não mais caçam.

Após a conflagração do Estio

Da juventude, e seus violentos sóis,

As minhas veias da vida, que tão altas iam que os rios portentosos

de África e de Ásia só regatos pareciam,

Secaram, e o Tempo qual fogo

Aos ossos mudou em nódulos de rubis como os horizontes da luz;

 

Para lá dos Verões está a peónia em botão

Nas veias, e os grandes péans do sangue

O empório da rosa!

E todavia julguei meu leito de amor meu esquife o mais alto

Sol dos céus, a altura aonde Sirius arde,

E julguei-o depois Sol da Morte, e que nada havia de fundo

Abaixo... Mas agora sei

Que mesmo os cães de caça no coração e nos céus

Acabam por dormir.

 

Tradução de Jorge de Sena

 



Escrito por marciliomedeiros às 18h49
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ERÓTICOS E CIA. VI

 

ARARAS VERSÁTEIS

 

                      Hilda Hilst

 

Araras versáteis. Prato de anêmonas.

O efebo passou entre as meninas trêfegas.

O rombudo bastão luzia na mornura das calças e do dia.

Ela abriu as coxas de esmalte, louça e umedecida laca

E vergastou a cona com minúsculo açoite.

O moço ajoelhou-se esfuçando-lhe os meios

E uma língua de agulha, de fogo, de molusco

Empapou-se de mel nos refolhos robustos.

Ela gritava um êxtase de gosmas e de lírios

Quando no instante alguém

Numa manobra ágil de jovem marinheiro

Arrancou do efebo as luzidias calças

Suspendeu-lhe o traseiro e aaaaaiiiii...

E gozaram os três entre os pios dos pássaros

Das araras versáteis e das meninas trêfegas.

 



Escrito por marciliomedeiros às 11h31
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ERÓTICOS E CIA. V

 

PER AMICA SILENTIA

 

                 Paul Verlaine

 

O alvo cortinado de musselina

Que o reflexo fraco da luminária

Faz parecer uma vaga opalina

Na sombra lassa e misteriosa,

 

Os longos cortinados de Adelina

Ouviram, Clara, a tua voz risonha

Tua voz suave, meiga e cristalina

Que uma outra voz enlaça, furiosa.

 

“Amar, Amar!” diziam essas vozes,

Clara, Adelina, presas adoráveis

Do nobre voto das almas sublimes.

 

Amai! Amai! Ó caras eremitas,

Pois nesses dias malditos, pelo menos

O glorioso Estigma vos distingue.

 

Tradução de Heloisa Jahn

 



Escrito por marciliomedeiros às 15h38
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ERÓTICOS E CIA. IV

 

COITO

 

              Ferreira Gullar

 

Todos os movimentos

           do amor

           são noturnos

mesmo quando praticados

           à luz do dia

 

Vem de ti o sinal

           no cheiro ou no tato

que faz acordar o bicho

           em seu fosso:

           na treva, lento,

           se desenrola

                     e desliza

em direção a teu sorriso

 

Hipnotiza-te

com seu guizo

                     envolve-te

em seus anéis

corredios

                     beija-te

                     a boca em flor

e por baixo

           com seu esporão

           te fende te fode

 

           e se fundem

           no gozo

 

depois

desenfia-se de ti

 

           a teu lado

           na cama

           recupero a minha forma usual

 



Escrito por marciliomedeiros às 14h40
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ERÓTICOS E CIA. III

 

A BOA DIETA

 

                    Friedrich von Logau

 

Carlota dissera ao seu doutor

Que lhe agradava, de manhã, fazer amor,

Embora à noite a coisa fosse mais sadia.

Sendo ela prudente, resolveu

Fazê-lo duas vezes ao dia:

De manhã, por prazer

De noite, por dever.

 

Tradução de José Paulo Paes

 



Escrito por marciliomedeiros às 15h13
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ERÓTICOS E CIA. II

ODE

 

                Fernando Pessoa (Ricardo Reis)

 

Eu nunca fui dos que a um sexo o outro

No amor ou na amizade preferiram.

Por igual a beleza apeteço

Seja onde for, beleza.

 

Pousa a ave, olhando apenas a quem pousa

Pondo querer pousar antes do ramo;

Corre o rio onde encontra o seu retiro

E não onde é preciso.

 

Assim das diferenças me separo

E onde amo, porque o amo ou não amo,

Nem a inocência inata quando se ama

Julgo postergada nisto.

 

Não no objecto, no modo está o amor

Logo que a ame, a qualquer cousa amo.

meu amor nela não reside, mas

Em meu amor.

 

Os deuses que nos deram este rumo

Também deram a flor pra que a colhêssemos

com melhor amor talvez colhamos

O que pra usar buscamos.



Escrito por marciliomedeiros às 16h49
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ERÓTICOS E CIA. I

AMOR É BICHO INSTRUÍDO

 

                    Carlos Drummond de Andrade 

 

Amor é bicho instruído

Olha: o amor pulou o muro

o amor subiu na árvore

em tempo de se estrepar.

Pronto, o amor se estrepou.

Daqui estou vendo o sangue

que escorre do corpo andrógino.

Essa ferida, meu bem

às vezes não sara nunca

às vezes sara amanhã.



Escrito por marciliomedeiros às 18h31
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MARIO QUINTANA

 

Dulce Helfer

 

AO LONGO DAS JANELAS MORTAS

 

                   Mario Quintana

 

Ao longo das janelas mortas

Meu passo bate as calçadas.

Que estranho bate!...Será

Que a minha perna é de pau?

Ah, que esta vida é automática!

Estou exausto da gravitação dos astros!

Vou dar um tiro neste poema horrivel!

Vou apitar chamando os guardas, os anjos, Nosso

Senhor, as prostitutas, os mortos!

Venham ver a minha degradação,

A minha sede insaciável de não sei o quê,

As minhas rugas.

Tombai, estrelas de conta,

Lua falsa de papelão,

Manto bordado do céu!

Tombai, cobri com a santa inutilidade vossa

Esta carcaça miserável de sonho...

 



Escrito por marciliomedeiros às 13h14
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OCTÁVIO PAZ

 

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CONVERSAR

 

             Octávio Paz

 

Em um poema leio:

Conversar é divino.

Mas os deuses não falam:

fazem, desfazem mundos

enquanto os homens falam.

Os deuses, sem palavras,

jogam jogos terríveis.

 

O espírito baixa

e desata as línguas

mas não diz palavra:

diz luz. A linguagem

pelo deus acesa,

é uma profecia

de chamas e um desplume

de sílabas queimadas:

cinza sem sentido.

 

A palavra do homem

é filha da morte.

Falamos porque somos

mortais: as palavras

não são signos, são anos.

Ao dizer o que dizem

os nomes que dizemos

dizem tempo: nos dizem,

somos nomes do tempo.

Conversar é humano.

 

Tradução de Antônio Moura



Escrito por marciliomedeiros às 14h20
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FRANCISCO BRINES

 

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COM QUEM FAREI AMOR?

 

                    Francisco Brines

 

A Juan Luis Panero

 

Neste copo de genebra bebo

os cercados minutos da noite,

a aridez da música e o ácido

desejo da carne. Só existe,

onde o gelo se ausenta, cristalino

licor e medo à solidão.

Esta noite não haverá a mercenária

companhia, nem gestos de aparente

calor num excesso de desejo. Longe

está hoje minha casa, a ela chegarei

na deserta luz da madrugada,

despirei meu corpo, e nas sombras

hei-de jazer com o tempo estéril.

 

Tradução de José Bento

 



Escrito por marciliomedeiros às 15h27
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DAVID MESTRE

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OBRA CEGA

 

              David Mestre

 

Nada sei

e o que presumo

emudeceu

de perfeição

 

*

 

Obscura pauta

entre as mandíbulas

oro

 

sentindo a estepe

na planta

dos pés

 

*

 

Escrito a cal

este reboco

Obra Cega

de merda

seca & sal

 

Boa Noite

Anjo Azul

olhar

com menino

por trás Só

 

a dor imita

o cursivo oculto

da adaga

tinta

de sonhos

 

*

 

Em diferido

noutra álgebra

uma sombra

alojou o coração

 

anfíbia filigrana

d'água rosada

ânfora ausente

luz de jade

 

suspeita se

 

*

 

Esquivas minhas

sandálias pardas

cavo com elas

pegadas de prata

 



Escrito por marciliomedeiros às 15h13
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ANNE SEXTON

 

TIPO ESSA

 

                Anne Sexton

 

Saí, bruxa possuída,

assombrando o ar, corajosa na noite preta,

me achando má, lição aprendida,

de janela acesa em janela acesa.

Coisa só, dos doze dedos, avessa.

Mulher assim não é mulher, não que se preza.

 

Descobri as cavernas quentes da floresta,

enchi de prateleiras, desenhos, relevos,

armários, sedas, inumeráveis coisas;

fiz a janta pros vermes e pros elfos:

arranjando o desarrumado, chorosa.

Mulher assim é incompreendida.

Eu fui tipo essa.

 

Andei no seu carro, moço,

Passei pelas cidades com os braços de fora, abanando pra elas.

Aprendendo os caminhos menos espertos, colosso,

as chamas ainda me mordendo as coxas,

as costelas partindo quando giram a manivela.

Mulher assim não tem vergonha de finar-se.

Eu fui tipo essa.

 

Tradução de Lavínia

 



Escrito por marciliomedeiros às 15h33
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ARTHUR RIMBAUD

 

LONGE DE PÁSSAROS, DE REBANHOS E ALDEÃS...

 

                    Arthur Rimbaud

 

Longe de pássaros, de rebanhos e aldeãs,

Numa clareira, o que estaria eu a beber de

Joelhos, tendo em volta uns bosques de avelãs,

Na cerração de um meio-dia úmido e verde?

 

O que haveria eu de beber nesse Oise infante,

- Olmos sem voz, relva sem flores, céu sem mira! -

Beber em cuias amarelas, bem distante

Da tenda? Algum licor dourado que transpira.

 

A torpe insígnia de um albergue eu parecia.

- Um temporal varreu o céu. No anoitecer

Na areia branca a água dos bosques se perdia,

No charco o vento de Deus flocos fez descer;

 

Chorando, eu via o ouro - e sem poder beber.

 

Tradução de Ivo Barroso



Escrito por marciliomedeiros às 14h29
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