Vida Literária por Marcilio Medeiros

Fala, poesia!



 
 

MARCILIO MEDEIROS

 

 

reprodução

 

Pintura de Wolf Kahn

 

 

TRIP

 

dizem: é uma jornada

assim parece

mas uma jornada

sem gente à porta

ou folhas de canela sob os passos

  

partidas e chegadas são hotéis.

 



Escrito por marciliomedeiros às 20h51
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ] [ ]




 
 

KONSTANTINOS KAVÁFIS

 

À ESPERA DOS BÁRBAROS

 

                    Konstantinos Kaváfis

 

O que esperamos na ágora reunidos?

 

      É que os bárbaros chegam hoje.

 

Por que tanta apatia no senado?

Os senadores não legislam mais?

 

      É que os bárbaros chegam hoje.

      Que leis hão de fazer os senadores?

      Os bárbaros que chegam as farão.

 

Por que o imperador se ergueu tão cedo

e de coroa solene se assentou

em seu trono, à porta magna da cidade?

 

      É que os bárbaros chegam hoje.

      O nosso imperador conta saudar

      o chefe deles. Tem pronto para dar-lhe

      um pergaminho no qual estão escritos

      muitos nomes e títulos.

 

Por que hoje os dois cônsules e os pretores

usam togas de púrpura, bordadas,

e pulseiras com grandes ametistas

e anéis com tais brilhantes e esmeraldas?

Por que hoje empunham bastões tão preciosos

de ouro e prata finamente cravejados?

 

      É que os bárbaros chegam hoje,

      tais coisas os deslumbram.

 

Por que não vêm os dignos oradores

derramar o seu verbo como sempre?

 

      É que os bárbaros chegam hoje

      e aborrecem arengas, eloqüências.

 

Por que subitamente esta inquietude?

(Que seriedade nas fisionomias!)

Por que tão rápido as ruas se esvaziam

e todos voltam para casa preocupados?

 

      Porque é já noite, os bárbaros não vêm

      e gente recém-chegada das fronteiras

      diz que não há mais bárbaros.

 

Sem bárbaros o que será de nós?

Ah! eles eram uma solução.

 

Tradução de José Paulo Paes



Escrito por marciliomedeiros às 19h19
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ] [ ]




 
 

MARCILIO MEDEIROS

wikimedia

 

Satã observando o amor de Adão e Eva, de William Blake

 

INOCÊNCIA

 

                A William Blake

 

ramos de abril

que se abrem

vos esperam

o mesmo vil abecedário

 

e os corvos postados

às portas fechadas

vos ensinam a pôr noite

na faminta claridade

 

é água turva

o que vos trazem

para que jaza

vosso esguicho

 

à curva suave

da boca das flores

ao nicho velado

de túmidas corolas

 

para apartar

vosso guincho de gozo

o relincho indomado

da desperta cavidade



Escrito por marciliomedeiros às 15h31
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ] [ ]




MARCILIO MEDEIROS

reprodução

Boca da Mona Lisa

 

FASE ORAL

 

Marcilio Medeiros

 

chupa

fuma

tritura

 

devorando fala

traça automática

 

açúcar e gesso

endurecê-lo



Escrito por marciliomedeiros às 18h32
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ] [ ]




MALDITO

reprodução

O Modelo Vermelho (1935), de René Magritte

 

     MALDITO

            

            I

 

nenhuma perversão

só a perdição do espaço

 

de aço o sexo

hoje apodrece o tempo

 

no açougue

ficou a carne branca

 

não há lança

que rompa os dias

 

               Marcilio Medeiros

 

 



Escrito por marciliomedeiros às 20h20
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ] [ ]




PRECE

PRECE

 

                 Marcilio Medeiros

 

Estou hoje prostrado

em elevação e pecado.

 

Santa Teresa me conduz

ao gozo

porque ela foi só

aspiração.

 

Chegarei ao ponto

(em cima ou em baixo?)

de sangramento e purificação?

 

wikimedia commons

 

O Êxtase de Santa Teresa, de Gian Lorenzo Bernini (1652)

Igreja Santa Maria della Vittoria, Roma



Escrito por marciliomedeiros às 23h47
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ] [ ]




MARCILIO MEDEIROS

fonte: oneglassonesongoneman.blogspot.com

The Wounded Angel - Hugo Simberg

 

MOVIMENTO

 

Só me encontro quando parto, quando deixo

De mim o que está certo, o espelho em que me vejo

Só chego a mim no caminho, no lufar das velas

Que desprendem barcos em ondas despertas

 

Só me contemplo inteiro no reflexo difuso

E conheço o nome na flecha em movimento

Só creio amplo o que é mesclado, impuro

E sinto a concretude da carne no pressentimento.

 

                                   MARCILIO MEDEIROS

    

  18 de janeiro de 2008



Escrito por marciliomedeiros às 16h55
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ] [ ]




SANTO

fonte: conversamuitaconversa.blogspot.com

 

SANTO

 

Marcilio Medeiros

 

A serenidade tornou-lhe

desnecessário o rosto

e o diverso ornamento com que

o gozo e a agonia o distinguiam.

 

Perdeu-se a face

dentro do escrínio olvidado.

 

Os fiéis prosternam-se

a seus pés

confessando-se compulsivos.

Reconhece ele todos os pecados.

 

 

Nota: Não há referência a quem seja o autor da gravura



Escrito por marciliomedeiros às 19h21
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ] [ ]




DOIS POEMAS

Foto: Marcelo Pimenta

 

 

INTERVALO

Nesta tarde em que o vento
vela pelo macio alarido
das chamas
queda-se abandonada
a equívoca equação
que domina o que é selvagem.

O que mais
senão o cansaço
para permitir esse breve momento
de impossível trégua?

 

 

DIÁLOGO

 

Apodera-te do recurso
a este diálogo único:

capturar a palavra
que digo com a minha boca
colada à tua
e saboreá-la comigo.

 

Marcilio Medeiros



Escrito por marciliomedeiros às 15h08
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ] [ ]




UM ESTRANGEIRO

fonte: autoria desconhecida

 

UM ESTRANGEIRO

Marcilio Medeiros

Toda cidade é um mistério e não se confunde com nenhuma outra, por mais próximas geográfica ou historicamente as duas estejam. Cada uma é o empreendimento coletivo, misto, anônimo de milhares de seres que a constroem ininterruptamente, com o conteúdo de suas próprias vidas.

Sua essência está em tudo e em nada especialmente, pois cada parte só tem sentido encravada no todo, no conjunto. É uma obra única, singular, inconsútil, resultado da alquimia de sua presença humana, física, histórica, econômica, cultural, que erige a sua grandeza e sua mesquinhez, reflexos da condição dos homens.

Mesmo para o morador mais atento, ela se mostra um tanto velada, reservada em algo de sua intimidade, de modo que não se mostra por inteiro, até porque só vemos o que os nossos valores, crenças, conceitos, interesses nos permitem enxergar, numa visão redutora. O que não é percebido mostra-se insuspeito, fazendo, no final, tudo parecer habitual, familiar.

Se a cidade tem pudores mesmo para os seus habitantes, imagine o que ela reserva a um estrangeiro! Suponha um que nela chegue, vendo-a à primeira vista. É provável que se depare com um ambiente bastante diferente daquele encontrado em sua terra natal. Previsivelmente, ele se aterá à beleza natural, ao relevo, ao conjunto arquitetônico, com um olhar inusitado. É de supor que teça comparações, considere alguns costumes um tanto exóticos e pitorescos, observe os tipos físicos existentes e a linguagem lhe pareça um som contínuo e indistinto. Esse conjunto de aspectos comporia um panorama particular, único. Tudo isso é permitido e comum a qualquer estrangeiro.

Pensemos, então, em alguém que retorne à cidade em que nasceu, mas da qual partiu pequeno e haja passado muito, muito tempo fora dali. Ele não mais reconhece a fisionomia, o sotaque, o imaginário, o tempero. Confuso, ele espera, no entanto, ser recebido como pela mãe que abraça, com alegria e calor, o filho há tanto distante.

As pessoas parecem arredias, desconfiadas, e você se sente um forasteiro no seu lugar, que talvez nem seja mais seu, e que, por isso, você não tem mais nenhum direito a ele. Você é daqui, mas não é daqui. Você é de lá, mas não é de lá. Talvez não seja mais de lugar algum. Seja apenas um estrangeiro dentro de si mesmo.



Escrito por marciliomedeiros às 22h37
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ] [ ]


[ página principal ] [ ver mensagens anteriores ]


 



Meu perfil
BRASIL, Homem, Portuguese, English, Escritor

Histórico
    Categorias
      Todas as Categorias
      Interseções
      Vida Literária
      Fala, poesia!
    Outros sites
      Vida Literária por Marcilio Medeiros II
      Notícias de Cultura
      UOL - O melhor conteúdo
      Interpoética - um espaço alternativo para a poesia
      Garganta da Serpente
      Sabugi by JQ
      Djanira Silva
      Germina - Revista de Literatura
      Linaldo Guedes
      À Flor da Terra
      Correio das Artes
      Poema/Processo 1967
      Balario Porreta 1986
      Letras & Leituras
      Recalcitrante por Meg
      Carminda Pinho
      Ana Carla Vannucchi
      Nós Pós
      Conexão Maringá
      Felipe Fortuna
      Franklin Jorge
      Revista A Cigarra
      Agulha - Revista de Cultura
      Links & Sites
      eraOdito Marcelino Freire
      Frederico Barbosa
      Ovelha Pop Micheliny Verunschk
      Claudio Daniel Cantar a Pele de Lontra IV
      Amoralva Jorge Vicente
      Longitudes Nydia Bonetti
      Alexandre Melo
      Eunice Duarte
    Votação
      Dê uma nota para meu blog


    Digite seu e-mail:

    Delivered by FeedBurner

    Faça a inscrição no meu feed

    Add to Technorati Favorites


    Exibir minha página em Verso e Prosa