Vida Literária por Marcilio Medeiros

Vida Literária



 
 

3 X 3

arquivo pessoal

 

Recital lítero-anárquico em homenagem ao Dadaísmo, realizado no Museu de Arte Aloísio Magalhães - MAMAM, Recife.

 

Foto de divulgação.

 

Da esquerda para a direita: 1. Paulo Bruscky, 2. Rosiluna, 3. Manuzé, 4. Marcilio Medeiros, 5. Eunice Duarte e 6. Sérgio Arruda (agachado)

 

1, 2 e 5, artistas plásticos; 3, 4 e 6, escritores.

 



Escrito por marciliomedeiros às 00h58
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Caixa Postal 642

CAIXA POSTAL 642

 

Cida Pedrosa, no dia 30 de agosto, durante o 6º Festival Recifense de Literatura, relembrou um pedaço pitoresco e saboroso da história de nossas vidas.

 

Quando não tínhamos à disposição as facilidades que a Internet propicia, a forma que dispúnhamos para nos interconectar com o mundo era a caixa postal que alugávamos nos Correios.

 

A do Jornal Vaga-lume, que editei entre 1982-83, era a de número 642. Foi através dela que troquei figurinhas com muitos escritores do Nordeste e Sudeste, que conheci os poetas udigrudi, que fiz amigos, que recebi jornais e plaquetes.

 

Nesse esquema, mantive contatos, por exemplo, com poetas como Marcelo Dolabela. Um amigo, Alan, enviou o Vaga-lume para a estação de rádio do sistema de comunicação alemã Deutsche Welle, que transmitia um programa em português. Possivelmente por isso, recebemos carta de lugares como Cabo Verde.

 

Pipol, do Portal Cronópios, reconheceu-se também na história, lembrando de sacos de correspondência outrora guardados.

 



Escrito por marciliomedeiros às 13h31
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A CIGARRA

Saíram dois poemas meus na edição deste mês da Revista A Cigarra, dirigida pela Escritora Jurema Barreto de Souza.

 

A Cigarra surgiu em maio de 1982 na Faculdade de Letras da Fundação Santo André, inicialmente como jornal literário, impresso em mimeógrafo.

 

Ao longo do tempo, mudou o sistema de impressão e formato, passando a ser reproduzido em xerox e, depois, em off-set. Em 1995, virou revista.

 

Conta, também, com uma versão digital.

 

Pelo tempo de permanência da publicação, é possível atestar o trabalho incansável em prol da literatura que Jurema tem feito. Parabéns.

 

Acesse A Cigarra.



Escrito por marciliomedeiros às 23h44
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6º FESTIVAL RECIFENSE DE LITERATURA - Dia 29/08/08

 

6º FESTIVAL RECIFENSE DE LITERATURA

 

 

Vai um pouquinho do aconteceu nesses três que passei no Recife.

 

 

Dia 29/08/08

 

 

O primeiro painel que assisti foi A Ficção Contemporânea em Pernambuco, com Adrienne Myrtes, Marcelino Freire e Cristhiano Aguiar.

 

Cristhiano é um dos editores da Revista Crispim, rodada pela Editora Universitária da UFPE. Descobri a revista recentemente e pareceu-me excelente. Comprei a versão impressa, para conferir melhor.

 

 

Marcelino Freire, Cristhiano Aguiar e Adrienne Myrtes

 

 

Marcelino, que ganhou o Prêmio Jabuti, na categoria conto, em 2006, lançou o novo livro Rasif, mar que arrebenta, publicado pela Record. Ele autografou o livro junto com Manu Maltez, que fez as gravuras.

 

Não o via desde que ele saiu do Recife. Talvez até um pouco antes disso.

 

A conquista do prêmio mais tradicional e importante do país, em termos de reconhecimento da crítica, é motivo de satisfação para todos nós, mas o que me deixa com alegria ainda maior é o fato de ele estar produzindo literatura de qualidade e fazendo o que acredita, com coerência e paixão. Não deixo de sentir regozijo, também, por Pernambuco.

 

Encontrei o casal Lúcia e Auríbio Farias. Auríbio foi meu companheiro de universidade e de copo.

 

Ele abriu a homenagem pelos sessenta anos de Raimundo Carrero, que aconteceu em seguida, em uma mesa composta por Marcelino e Marcelo Pereira.

 

Auríbio percorreu a trajetória literária do homenageado que totaliza quinze livros e destacou os temas recorrentes de sua obra.

 

Marcelo falou sobre o Carrero escritor e ser humano, a partir de uma ótica mais intimista e pessoal.

 

Marcelino destacou sua vivência como participante da primeira oficina literária organizada por Carrero e que a paixão visceral que o homenageado demonstrava pela escrita confirmou seu desejo de insistir na literatura.

 

Ao final, Carrero disse que cultiva sempre a exigência de si mesmo, procurando desafiar-se constantemente como escritor. Declarou que sua missão é compreender, revelar a alma humana e, mesmo sabendo que não vai conseguir isso, vai passar a vida tentando.

 

Foi uma celebração informal, emocionante e extremamente divertida.

 

Da esquerda para a direita: Raimundo Carrero, Marcelo Pereira e Auríbio Farias

 

Por lá, vi também os escritores Marcus Accioly e Inah Lins.

 

Depois, fomos colocar a conversa em dia em um bar da Rua da Moeda, próximo ao palco da Recitata, o concurso de declamação que acontece dentro do festival.

 

_________________________________________________________

 

Eu havia chegado à Livraria Cultura por volta das 16 horas.

 

Havia terminado a palestra de Saulo Neiva, que tratou do épico na poesia do século 20.

 

Conheço Saulo há mais de vinte e cinco anos.

 

Ele saiu do Recife por volta de 1990, dirigindo-se, primeiramente, a São Paulo e, depois, à França, onde fez doutorado na Sorbonne. Atualmente, é professor da Universidade Blaise Cendrars.

 

Deu tempo de conversamos um pouco e trocarmos endereço, para um contato posterior.

 

Fotos: Marcilio Medeiros



Escrito por marciliomedeiros às 20h12
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E FÁTIMA, ONDE ANDA?

fonte: voodapoesia.blogs.sapo.pt/

 

 

Circle Dreams I, de Celine Nerbelow

 

 

E FÁTIMA, ONDE ANDA?

 

No último dia 17, pretendia escrever sobre uma coisa e saiu outra. Veja aqui.

 

Hoje, retomo a idéia que havia ficado para trás.

 

Tirar um livro da estante é puxar um novelo de histórias que vou desenrolando e no qual, quase sempre, me confundo.

 

Um acontecimento, um mero instantâneo aparentemente desconexo leva a outro, que, por sua vez, remete a outro, numa sucessão que não tem fim.

 

Em alguns momentos, estou buscando um livro específico, que parece querer se esconder. Em outros, o livro me procura, cai sobre mim.

 

Pois bem. Mexendo neles, reencontrei Dedetização: dia de festa, de Fátima Ferreira, lançado em 1981. É o primeiro ou segundo livro dela.

 

A pergunta inevitável foi: por onde anda Fátima? Penso que já faz algum tempo que está afastada da literatura, ou apenas das publicações, talvez dedicando-se unicamente às lides jurídicas.

 

Lembrei-me com carinho da Fátima poeta, editora de jornais de poesia, organizadora de exposições, integrante do movimento de escritores independentes; da Fátima, olindense, cuja imagem ficou na mente tão associada a Olinda.

 

Nossa geração não se contentava apenas em escrever. Não esperávamos as oportunidades surgirem. Um traço comum é que criávamos os meios de mostrar nosso trabalho. Outros podem ter feito isso, mas, no nosso caso, a opção foi radical. Daí a alcunha de independentes, nesse sentido, ter sido bem utilizada, uma independência que se expressou também pelo não atrelamento aos círculos viciados do patrimonialismo literário. Ninguém nos segurou.

 

Voltando ao livro, o poema que lhe dá título tem força e sutileza:

 

 

DEDETIZAÇÃO

 

                  Fátima Ferreira

 

Hoje

não haverá fantasmas

nem assombrações

todas as portas serão abertas

todas as gavetas de medo

terão seus segredos desvendados

não haverá torturas caladas

que não dêem o seu berro

e nas casas

tudo ficará posto

a uma claridade divina

para a dedetização.

 

 

E, então, Fátima, o que você tem feito?

 



Escrito por marciliomedeiros às 22h31
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LEMBRANÇAS DA LIVRO 7

LEMBRANÇAS DA LIVRO 7

 

Samarone Lima*

 

Vi as reportagens, fiquei sabendo pelos comentários dos amigos, que a Livraria Cultura, instalada no Cais da Alfândega, era um negócio extraordinário. Uma série de viagens foi adiando minha primeira visita ao novo território cultural da cidade. Além disso, queria ir com um dinheiro extra para não ficar horas lambendo os livros e depois sair de mãos vazias. Por força das circunstâncias, especialmente da fiscalização, há tempos não roubo livros.

 

Pois no sábado, olhei o saldo no banco e tinham depositado o tal dinheiro extra. À tardinha, tomei um banho demorado e fiquei pensando neles, os meus preferidos: Lawrence Durrell, Bruce Chatwin, Roberto Bolaño, Vicente Huidobro, Ernesto Sábato, Robert Arlt, Oswaldo Soriano etc. Não, amigos, não sou adepto dos medalhões. Acho um tédio esse negócio de todo mundo considerar Flaubert, Dostoievski, Proust, Neruda os donos da pelota. Tenho vários crimes literários. Larguei, sem remorso, "Crime e Castigo" pela metade. Neruda não chega aos pés de Huidobro e o leio até com um certo desdém. O Quarteto de Alexandria, de Durrell, me comove mais que toda a obra de Proust que, por sinal, só li o primeiro volume. Prefiro mil vezes Mia Couto, de Angola, que o alardeado Rubem Fonseca e toda sua prole de "autores brutais" que o Brasil tem nos presenteado. Se é para ser brutal, vou de Henry Miller.

 

Peguei o renomado Alto Santa Isabel, da Transcol (informo que o proprietário bebe aqui em seu Vital), atravessei a ponte (prometi este ano decorar o nome de todas as pontes do Recife) e vi, de longe, o nome "Cultura". Quando cheguei, já vi que o negócio era profissional. Tinha uma moça com walk-talk na entrada, pastorando os leitores, e a porta era de vidro, automática. Entrei, era tudo lindo e refrigerado. Perguntei à moça do computador se tinha livros do Roberto Bolaño. Tem sim, Noturno do Chile, respondeu ela, com uma voz de veludo, mas com aquela elegância programada das aeromoças. Em trinta segundos, eu estava com o livro nas mãos.

 

A primeira pessoa conhecida que encontrei foi Benira, do JC OnLine. Ficamos a conversar umas coisinhas até que ela foi para um lado, e fiquei com a literatura estrangeira. Lamento informar, meus leitores, mas os meus preferidos estavam em baixa. Do Durrell, só livro de poemas (que é muito ruim, por sinal), e nada do Bruce Chatwin. Fiquei perambulando, olhando o monumento que é a livraria, com uma parte só para CDs, outra para DVDs, outra só de literatura infantil (como estão lendo, essas crianças de hoje!) e uma parte de livros técnicos.

 

É tudo muito bonito, os vendedores são educadíssimos, há computadores para consultas imediatas, tem cafeteria (tomei um expresso por 3 contos), mas depois de meia hora, o que senti mesmo foi uma bruta saudade da Livro 7.

 

Sim, amigos, a lendária Livro 7, do Tarcisio Pereira, fez parte da vida de muita gente, especialmente da minha. Aliás, fez parte da história do Recife. Foi lá que encontrei abrigo nas noites mais tristes, naquele período liseira total de Casa do Estudante, entre 1987 e 1992, meu primeiro ciclo de "estudante-que-depende-do-restaurante-universitário-da-Federal".

 

Quantas horas eu não passei na Livro 7, entre aquelas prateleiras rústicas?! Lembro daqueles vendedores com cara de que moravam na UR-7, Ibura, Cohab 7, menos cabeça feita que os da Cultura, mas capazes de comentar sobre o resultado do Santa Cruz na rodada anterior e falar do resultado do jogo do bicho da noite. Sim, gente que bebe cerveja em copo americano, e pede um "ele/ela" na saída do trabalho para desafogar o cansaço. E as fotos emolduradas nas paredes? Hermilo, Ariano, Osman Lins. Eu, que tinha chegado de Fortaleza com uma bagagem cultural meia-boca, comecei a encontrar essas criaturas e descobri que meu coração ficaria por aqui mesmo. Para completar, eu tinha um jornaleco na Casa do Estudante, o "Correio Cultural", e Tarcisio apoiou diversas vezes, dando uma grana fundamental para o projeto não morrer.

 

Voltei da Cultura com três livros (Bolaño, Gay Talese e Paulo Mendes Campos), mas atravessei a ponte de volta com uma puta saudade da Livro 7. Lembro que eu estava em São Paulo, quando recebi a notícia: a Livro 7 fechou. Foi como se o Acho é Pouco tivesse se dissolvido, o Papa Figo saísse de circulação ou o Empório Sertanejo começasse a fechar à meia-noite.

 

Fiquei triste, lembrei que roubei alguns livros, fruto da minha mendicância cultural. Não, não foi nada de roubo em série, que causasse estragos na contabilidade de Tarcisio Pereira. Alguns livros prediletos, quando a grana não dava sequer para um bom livro de poemas. Vai aqui, tardiamente, meu pedido de perdão. Foi mal, Tarcisio!

 

A Livraria Cultura está ali, imponente, com milhares de livros, CDs, DVDs, tudo bacana, organizado, exatamente como em São Paulo. É um padrão rigoroso de qualidade, mas acho que não sou muito adepto deste formato shopping center. Senti falta de algo que não sei o nome, talvez algum leitor possa me ajudar a explicar (se é que é necessário explicar tudo nesta vida).

 

Me deu uma vontade enorme de ir à 7 de Setembro e ver aquele imenso galpão repleto de gente, de comprar um livro e sair para tomar uma cerveja naqueles botecos da região, comer um daqueles espetinhos tenebrosos assados pela fumaça, fundamentais para a boa saúde, com o velho amigo Waldemir Leite, carne e unha comigo desde o primeiro dia da Católica, em 1988. Mas o tempo passou e as coisas mudaram. Fica somente a constatação: gosto mesmo de umas coisas fora de moda.

 

Foi na Livro 7 que me alfabetizei para a vida. Os tempos são outros, a vida segue. Não, esta não é uma crônica triste sobre coisas que tombaram. Acho que é uma pequena lembrança sentimental de um lugar que nos pertenceu, gerador de tantas epifanias. Quem nunca marcou um encontro "na entrada da Livro 7" que levante o dedo.

 

Se eu fosse vereador, tentaria tombar aquele galpão da Livro 7, onde reside nossa memória espiritual. Colocaria uma placa na entrada, dizendo "Aqui, o povo de Pernambuco aprendeu a amar os livros".

 

De qualquer forma, votos de vida longa à Livraria Cultura, onde irei gastar uns bons trocados.

 

 

A crônica de hoje é dedicada a Tarcisio Pereira.

 

 

* SAMARONE LIMA tem 39 anos, é jornalista e autor dos livros Zé (1998), Clamor (2003) e Estuário (2006).

 

Texto publicado em 11 de outubro de 2004. Agradecemos ao autor ter autorizado a reprodução.



Escrito por marciliomedeiros às 14h57
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O QUE EU IRIA DIZER

fonte: wikimedia commons

Bairro do Recife ao longe, visto da Ilha de Santo Antônio. Pintura de Frans Post - século XVII

 

 

O QUE EU IRIA DIZER

 

A iniciativa de fazer este blogue surgiu de uma idéia prosaica. Seria melhor e soaria mais bonito se eu pudesse dizer que tinha algum projeto grandioso quando o iniciei. Não foi.

 

A força motriz foi a simples e pura necessidade de revirar as memórias do que vivi ou presenciei no mundo da literatura. Daí, o nome Vida Literária, que me veio à mente, espontaneamente, de um livro guardado cá comigo e cujo título nunca me saiu da cabeça, não sei bem porquê.

 

O livro chama-se Literatura e Vida Literária: polêmicas, diários & retratos, foi lançado em 1985, época da reabertura política do país, e a autora é Flora Süssekind. Fazia parte de uma coleção da Jorge Zahar Editor, intitulada Brasil, os Anos de Autoritarismo.

 

Provavelmente, o que fez surgir essa idéia, essa vontade, essa necessidade tenha sido saudade, gerada pelo fato de eu estar fora do meu habitat natural.

 

Se poetas são propensos a sentimentos extremados e a uma boa dose de melancolia, pernambucanos padecem irremediavelmente de saudade. Pernambucanos sempre parecem nostálgicos de alguma coisa, de um-não-sei-quê. Em uma conversa virtual ou real sobre qualquer assunto sempre surge uma brecha para o saudosismo.

 

Escrevendo o texto sobre a Livro 7, postado há uma semana atrás aqui, pesquisei na internet sobre as datas de início e encerramento das atividades da famosa e inesquecível livraria. Encontrei alguns depoimentos pessoais, em tom memorialista, sobre isso.

 

Os comentários que os leitores fizeram a essas postagens foi um capítulo à parte. Ler sobre a livraria foi motivo para as pessoas terem saudade de todas as coisas que existiam ao redor dali: do Beco da Fome, do cachorro quente da Cascatinha, do espetinho de carne vendido na rua, dos bares, da Livraria Síntese, que funcionava na Rua do Hospício, depois na Rua do Riachuelo. Teve gente que lembrou até da Fecin (parque de diversões que existia perto da minha casa) e do tobogã da Rua da Aurora.

 

Eu, que padeço do mesmo mal, ainda acrescentei, mentalmente, o DCE da UFPE, que ficava na já citada Rua do Hospício, quase na esquina com a Av. Conde da Boa Vista, cujo prédio foi derrubado e em que eu vivia sentado nos batentes da entrada, em uma época de movimento estudantil e inícios da poesia.

 

Será isso herança lusitana? Se for, o atavismo expressou-se de forma absolutamente inexpugnável. De minha parte, ao pensar em Pernambuco, sempre relembro Fernando Pessoa, talvez o poeta de que mais gosto entre uma legião preciosa e restrita de favoritos: ó, mar português, quanto do teu sal são lágrimas de Portugal.

 

Isto poderia ter sido dito de Pernambuco. Quanta luta e sofrimento houve para sermos quem somos! Como não lamentar o fuzilamento de Frei Caneca, que lutou pela liberdade, ou o incêndio de Olinda pelos holandeses?

 

Na verdade, eu iria escrever sobre gente cujos livros reencontrei hoje na estante, mas saiu este texto. Amanhã, falo do que pretendia ter dito, isso se eu não me perder novamente em outros devaneios.



Escrito por marciliomedeiros às 00h06
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INTERSEÇÕES

PEDRO KILKERRY

 

Este é um dos meus poetas brasileiros preferidos. Considero-o um dos mais inventivos. Ele sempre cria imagens surpreendentes e trabalha. esteticamente, a linguagem de modo a apenas anunciar, nunca revelar por inteiro, o que permite ao leitor construir sua própria interpretação do texto. Isso é poesia!

 

Observem que o primeiro quarteto (estrofe de quatro versos) poderia ter sido escrito por qualquer outro escritor simbolista. Todavia, o resto do soneto é Pedro Kilkerry em toda a sua grandiosidade.

 

 

O MURO

 

Movendo os pés doirados, lentamente,

Horas brancas lá vão, de amor e rosas

As impalpáveis formas, no ar, cheirosas...

Sombras, sombras que são da alma doente!

 

E eu, magro, espio... e um muro, magro, em frente

Abrindo à tarde as órbitas musgosas

— Vazias? Menos do que misteriosas —

Pestaneja, estremece... O muro sente!

 

E que cheiro que sai dos nervos dele,

Embora o caio roído, cor de brasa,

E lhe doa talvez aquela pele!

 

Mas um prazer ao sofrimento casa...

Pois o ramo em que o vento à dor lhe impele

É onde a volúpia está de uma asa e outra asa...

 

Pedro Militão Kilkerry (Santo Antônio de Jesus - BA, 1885 - Salvador - BA, 1917). Filho de irlandês e baiana, formou-se em Direito. Pobre e boêmio, morreu tuberculoso, sem ter qualquer livro publicado.



Escrito por marciliomedeiros às 03h39
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INDEPENDENTES, MARGINAIS, ALTERNATIVOS I

INDEPENDENTES, MARGINAIS, ALTERNATIVOS – 1ª Parte

 

 

Década de 80. Havia uma geração nova de escritores que, além de não encontrar espaço de publicação nos meios editoriais e jornalísticos existentes, não queriam apenas a burocracia que marcava a atuação dos círculos literários tradicionais.

Queríamos ganhar a rua, interagir com a cidade, ter contato direto com as pessoas, quer fossem leitores convictos ou apenas simpatizantes da literatura. Queríamos a poesia na vida concreta dos espaços públicos e a vida jorrando na poesia. A idéia era não apenas escrever, mas agitar culturalmente a cidade.

De muitas fontes e iniciativas isoladas, expressões dessa tendência espocavam. Nas esquinas, bares, em locais tradicionalmente relacionados à boemia ou à atividade cultural ou em outros inusitados de Olinda e do Recife, os modos de intervenção que caracterizaram esses poetas começaram a tomar forma e sentido. Existiu uma convergência espontânea, pela similitude de posturas e propostas e que viria a ser reforçada por contatos, ligações, encontros que foram acontecendo entre pessoas, grupos e subgrupos.

A atuação ocorria com declamações de poesia, recitais-relâmpago, happenings; lançamentos de livros mimeografados, xerografados ou outros meios artesanais, ou prensados em gráficas e bancados pelos próprios autores; e edição de jornais literários. Os trabalhos eram vendidos em bares, portas de teatro e cinema etc., ocasiões em que se costumava dizer poesia, como estratégia de chamar a atenção e conquistar o público presente.

Esses escritores passaram a ser conhecidos por independentes, marginais, alternativos e daí sua literatura e seus trabalhos impressos serem chamados de poesia independente e jornais alternativos e independentes.

O centro físico ou quartel-general de todas as presenças era a Livraria Livro 7 e entorno, formado pelos bares da Rua Sete de Setembro e do Beco da Fome. Rodava-se a cidade, espalhava-se pelos cantos e recantos, entretanto sempre voltava-se ao mesmo ponto irradiador. 

Desse período, conheci inicialmente o Jornal Poemar, editado por Mônica Franco, em Olinda, e em que publiquei, em 1982, meu primeiro poema. O ensaio inaugural no sentido de fazer algo parecido foi a impressão de um tablóide mimeografado, que rodei num equipamento conseguido sem muita cerimônia e sem conhecer ninguém de uma escola pública. Foi um pequeno delito consentido, pela arte.

Em maio desse ano, sai o número um do Jornal Lítero-Pessimista, de Francisco Espinhara e equipe, que trazia na capa O Morcego, de Augusto dos Anjos.

Neste mesmo ano, lancei o Jornal Vaga-Lume, desta vez produzido em offset. No número seguinte, juntarem-se à iniciativa Ângela Fernanda Belfort e Flávio Chaves. Lá estavam textos de Andréa Mota, Alberto Cunha Melo, Dione Barreto, Marcelo Mário Melo, Vernaide Wanderley, Manuzé, Wilton Lima, Jairo Cabral, Celina de Holanda, Hilton Lacerda (roteirista de Amarelo Manga e diretor de Cartola – Música para os Olhos), do artista plástico Ramos Melo e gravura do hoje cantor Gê Domingues. Continha, ainda, duas páginas dedicadas a Clarice Lispector, em uma época que as pessoas, no Recife, pareciam não dar muita importância a ela ou considerá-la completamente dissociada da história da cidade, logo ela que viveu e tanto amou o Recife. Basta ler suas crônicas e cartas para saber disso.

Estávamos no limiar da redemocratização do país e a referência política, no jornal, ficava por conta de uma charge que dizia: - mãe, o que é preciso para ser enquadrado na lei de segurança nacional? – basta dizer alguma verdade, filho. – E para ser corrupto? – É só ir morar em Brasília. Havia muitos reflexos dos anos mais duros desse período na minha geração, que nasceu e cresceu na ditadura militar.

Para divulgar o jornal, fui procurar Alberto da Cunha Melo, no Arquivo Público do Estado e que mantinha a coluna Commercio Cultural no Jornal do Commercio. Foi assim que o conheci.

Um pouco depois, surgiu o Ulalume, de muitos editores, entre eles, Antonio de Campos, Ângelo Monteiro, Paulo Gustavo e Arnaldo Afonso (hoje da Edições Bagaço e que, por gentileza e liberalidade, me deu de presente a capa de meu segundo livro).

Havia ainda os jornais Mandacaru, de Pedro do Amaral Costa, o Pro-Texto, de Arnaldo Tobias, o Contágil, de Dione Barreto e Manuzé, e outros tantos.



Escrito por marciliomedeiros às 03h13
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INDEPENDENTES, MARGINAIS, ALTERNATIVOS II

INDEPENDENTES, MARGINAIS, ALTERNATIVOS – 2ª Parte

 

Em 1984, editamos, Flávio Chaves, Sidney Rocha e eu, o Jornal Prólogo. Neste ano, lancei, em edição própria, meu primeiro livro, na Livro 7. E houve declamação de poesia, claro! Lembro-me, especialmente, da perfomance cheia de verve e irreverência de Xico Sá.

No mês de abril, ocorreu, no Gabinete Português de Leitura, América Erótica e Virgem, uma exposição de posters-poemas, da qual não participei, mas estive na abertura.

Em uma conversa etílico-literária, das muitas que havia por aquela época, formada por Eduardo Martins, Cida Pedrosa, Chico Espinhara, talvez Fátima Ferreira e Hector Pellizzi, ouvíamos Eduardo falar, com empolgação e orgulho, de uma crítica que César Leal havia feito sobre a poesia dele ou do grupo, não recordo bem. A opinião de César e o espaço que ele abriu eram muitos importantes naquele momento. A propósito, ele foi meu professor.  

No Festival de Inverno da UNICAP, realizamos o espetáculo Canção do Momento, com poemas e músicas nossas, que depois teve mais algumas apresentações na Sala Clenio Wanderley, da Casa da Cultura. Conheci muita gente naqueles saudosos festivais e de onde havia saído, no ano anterior, a I Caminhada Poética do Recife, com um grande público percorrendo as ruas da cidade, portando velas e dizendo poesia em cima de um caminhão de som. Impossível esquecer Dione Barreto falando os versos: eu sou mulher, antiga besta de um aborto mal feito... A Caminhada contou com o apoio da UNICAP e da FUNDARPE, no entanto tinha muito do espírito daquele jeito de viver e divulgar poesia dos independentes. Em 1985, acontece a I Chuva Poética, com palco montado na Praia de Boa Viagem e poemas sendo arremessados, pelos ares, de um helicóptero. Audálio Alves publica matéria, em sua coluna do Jornal de Letras, do Rio de Janeiro, falando da nova geração de poetas pernambucanos e cita como exemplo um poema meu.

Por esse tempo, houve a primeira eleição da União Brasileira de Escritores – Secção Pernambuco - UBE-PE. Lembro-me de uma conversa na Praça do Sebo (Rua da Roda) sobre as articulações para formação da chapa única e Manuzé dizendo: acho que você podia estar nela... ao que eu contrapus: não sou filiado ainda e conheço pouca gente. A intenção era aglutinar nomes e tendências variadas e, em certa medida, isso foi obtido com uma chapa mista de novos e velhos escritores, com o perdão dos rótulos.

Entrei na UBE-PE em 1986, com proposta apresentada por Dione Barreto, que viria a ocupar, depois, a presidência da entidade.

O fim forçado das colunas Commercio Cultural, de Alberto Cunha Melo, no Jornal do Commercio, e Poliedro, de Paulo Azevedo Chaves, no Diário de Pernambuco, foi um duro golpe para nós.

Em dezembro de 1986, é organizada uma homenagem a Mauro Mota, que não havia muito que falecera, e coube a mim dizer o poema Pastoral.

Já na universidade, fiz mais um jornal, chamado A Boca, com o pessoal do Diretório Acadêmico. Em 1986-87, quis dar prosseguimento a edição de tablóides literários com Mytho e Lúbrico, que nunca saíram. Este último era um projeto com o escritor e jornalista Raimundo de Moraes, logomarca e arte de Manuzé e que recebeu apoio do jornalista Paulo Azevedo Chaves, que, aliás, foi o primeiro a publicar poesia minha na grande imprensa. O projeto estava todo pronto, mas desistimos em função da falta de patrocínio.

Na eleição da UBE-PE para o biênio 1987-88, há um cisma entre os independentes, parte apoiando Nagib Jorge Neto e outra, Marcus Accioly. Tinha amigos nos dois grupos. Como queria participar da vida da entidade e fui contatado pelo segundo grupo, juntei-me a ele.

Penso que já fazia algum tempo que não éramos mais tão independentes quanto julgávamos ou queríamos crer.

Nagib foi eleito presidente. Como minha intenção era colaborar e não havia antagonismo intrínseco com as pessoas do grupo, dirigi, para a UBE-PE, o espetáculo que homenageou Carlos Pena Filho naquele ano e que teve lugar no MAMAM.

Reunimos escritores e artistas plásticos para uma homenagem ao Movimento Dadaísta, com um espetáculo completamente anárquico, à frente Paulo Brusky. Não lembro bem o ano disso.

Em 1988, a UBE-PE organiza o I Encontro de Escritores do Nordeste, no Cineteatro da Fundação Joaquim Nabuco, do Derby. Em 1989,  foi realizada a exposição A Fotografia e seu Poema, com fotos de Flavio Azevedo. Os nomes dos poetas no cartaz do evento foram dispostos de forma que formasse um soneto:

 

Arnaldo Tobias, Carlos Laerte, Carlos Senna,

Celina de Holanda, Ceci Alencar,

Cida Pedrosa, Domingos Alexandre,

Eduardo Martins e Everardo Veras.

 

Geraldino Brasil, Héctor Pellizzi,

Iran Gama, Jailson Marroquim, José Torres,

Juhareiz Correya, Lenice Gomes,

Manoel Constantino e Marcilio Medeiros.

 

Marconi Notaro, Maria da Paz Ribeiro Dantas,

Paulo Chaves, Pencas, Maria de Lourdes Hortas,

Raimundo de Moraes e Samuca Santos.

 

Selma Vasconcelos, Taiz Fernandes, Tarcisio Laureano,

Vernaide Wanderley, Vital Correa de Araújo,

Wilson Freire e Wilson Vilar.

 

Para mim, esses foram os momentos finais daquela fase.

Em 2000, Francisco Espinhara lançou o livro Movimento de Escritores Independentes de Pernambuco 1980/1988, que documentou muito daquele período em Pernambuco, com relato, fotos e pequena coletânea. Nunca vi o livro, mas fiquei sabendo que estou lá em foto e poema dos primeiros tempos - poema, é bem provável, de qualidade bastante sofrível.

No Festival Recifense de Poesia de 2006, encontrei Chico e perguntei se ainda havia algum exemplar que eu pudesse adquirir. Ele informou que não. Trouxe para casa Sangue Ruim, um de seus últimos livros. Foi a última vez que o vi. Hoje, ele deve estar conversando com Augusto do Anjos ou Baudelaire.



Escrito por marciliomedeiros às 03h12
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DESCOBERTA DA POESIA

DESCOBERTA DA POESIA

  

Comecei a escrever poesia por uma via transversal, influenciado pela música.

Venho de uma família amante das expressões musicais. Que benção, não é mesmo? Em reunião de família, rapidamente formava-se um conjunto e uma platéia participativa e animada. A razão era simples: entre tios, primos, irmãos, maridos etc, havia clarinetistas, trompetistas, saxofonistas, percussionistas, cantores e violonistas. De uma discreta seresta, aquilo transformava-se em uma festa dançante.

Em casa, a música era um ritual diário. Minha mãe ouvia Nelson Gonçalves e Roberto Carlos; meu irmão ia de Novos Baianos, Gal Costa, Maria Bethânia, Caetano Veloso, Chico Buarque, Jorge Ben, Beatles, Simon & Garfunkel, Creendence Clearwater Revival.

Após o almoço, ela recostava-se em uma rede, pegava o violão e soltava: “Não, eu não posso lembrar que te amei... vou indo, caminhando sem saber onde chegar...” Mas a sua canção preferida mesmo ainda é Último Desejo, de Noel Rosa: “Nosso amor que eu não esqueço e que teve seu começo numa festa de São João...”, que lembra as festas em homenagem ao padroeiro de sua cidade natal e que, por isso, tem o nome do santo.

Eu ficava ali junto, ouvindo-a cantar aquelas músicas sentimentais e, de um modo espontâneo e imperceptível, fui ficando repleto de versos e acordes. Por volta dos nove anos, ganhei uma vitrola Philips, com o tamanho aproximado de uma caixa de sapato e cuja tampa era o autofalante. Destacava-se uma parte da outra e estava pronta para tocar. Minha coleção de discos começou com Secos e Molhados, Ednardo (Pavão Misterioso) e uma coletânea que tinha Esse Tal de Roque Enrow, de Rita Lee, e a primeira gravação de Fafá de Belém, que se chamava Filho da Bahia. Ganhei, também, Carpenters, cantando Please, Mr. Postman, e Bill Haley, com Rock Around The Clock.

O problema é que não me contentava apenas com isso. Queria ir às apresentações musicais. Mas o que uma criança iria fazer num lugar desses? De tanta insistência, consegui a aprovação para ir, com um irmão, ao show de Rita Lee no Geraldão, que é um ginásio de esportes onde aconteciam, àquela época, muitos shows no Recife.

O violão era coisa que não faltava na nossa casa, quer se soubesse tocar ou não. Aos 14, ganhei um. Vieram aulas, com uma professora particular, que residia perto da Rua da Hora. No colégio, Venusa utilizava, em suas aulas, música popular brasileira para a interpretação de textos. Ensinava: “Tá lá o corpo estendido no chão. Em vez de rosto, uma foto de um gol”. Vejam: o morto foi encontrado com um jornal sobre o rosto, contendo uma matéria futebolística.

Não havia como escapar de tudo isso. Já estava completamente envolvido. Felizmente! Então pensei... vou fazer umas coisas dessas também. Aí saíram os primeiros textos, acompanhados de melodias imaginárias. Logo, deixei de lado as aulas de violão, mas continuei a escrever com regularidade. Não virei compositor, mas, pelo menos, a música nunca me deixou. É cotidiana na vida e na sonoridade que sempre busco criar na poesia.



Escrito por marciliomedeiros às 16h50
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A FASCINAÇÃO DA PALAVRA

A FASCINAÇÃO DA PALAVRA

 

 

Aos dez anos, deparei-me com a tarefa escolar de ler o volume 1 da Coleção Para Gostar de Ler, com crônicas de Drummond, Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos e Rubem Braga. Um dos textos que recordo especialmente, intitulado O Padeiro, falava da figura matinal que levava o pão à casa das pessoas, batia à porta e gritava: não é ninguém, é o padeiro. O cronista, certa vez, o indaga: como você teve a idéia de dizer isso... então, você não é ninguém? O interlocutor dá-lhe como resposta, sorrindo e sem mágoa, que se acostumou com aquilo, ao ouvir repetidamente a empregada dizer para a dona da casa, ao ser perguntada quem é, não é ninguém, não senhora, é o padeiro.

No ano seguinte, ganhei de aniversário O Menino do Dedo Verde, do escritor francês Maurice Druon, membro da Academia Francesa de Letras e bisneto de um brasileiro, Odorico Mendes, tradutor de Homero e Virgílio.

Contava a estória do menino Tistu, que fazia brotar flores e plantas com o toque do seu dedo e, ao ter contato com a violência do mundo, passa a utilizar seu dom especial, como forma de resistência e transformação da realidade.

Foi assim que me tornei um leitor voraz. Por essa época, descobri a Biblioteca Pública de Pernambuco, na qual havia uma seção circulante que emprestava livros a quem se cadastrasse. De posse do meu cartão de leitor – que era cinza, com uma foto na parte superior e muitos quadradrinhos para marcar as datas de empréstimo e devolução – passei a pegar livros sem parar. Desse modo, li tudo que encontrei pela frente de Julio Verne e Agatha Christie.

Em seguida, vieram os cronistas: os meus velhos conhecidos do livro da escola que citei acima, Lygia Fagundes Telles, Rachel Jardim, Cecília Meireles... Transitando, com curiosidade e desejo sem fim, por aquelas prateleiras de aço, logo vieram os romances e a poesia, e depois tudo junto.

Em casa, encontrei a coleção Grandes Romances Universais, formada por vinte volumes, editado pela W. M. Jackson Inc. Editores, em 1963, que tinha sido de meu pai. Como é aquilo tudo estava ali e eu não havia reparado? E haja A Escrava Isaura, de Bernardo Guimarães, Os Trabalhadores do Mar, de Victor Hugo etc., que lia, com solenidade, em volumes de capa dura.

Depois, comecei a formar minha biblioteca, com livros adquiridos na Livro 7. Isso e meu encontro com a literatura de Cecília Meireles e Clarice Lispector contarei depois.

Hoje, quando sentei para registrar estas reminiscências, encontrei, ao acaso, uma notícia acerca das comemorações dos 156 anos de fundação da Biblioteca Pública de Pernambuco, iniciadas dia 05 deste mês, e as memórias tornaram-se mais doces.



Escrito por marciliomedeiros às 18h04
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ENCONTRO COM CELINA DE HOLANDA

 

ENCONTRO COM CELINA DE HOLANDA

Estava dando os primeiros passos no caminho misterioso da literatura. Com muita pressa e nenhuma autocrítica, queria publicar. Comecei a procurar opções, como um embriagado que persegue a sua primeira paixão. Um dia, deparei-me com um livro das Edições Pirata e a referência ao nome e endereço de Celina de Holanda.

Numa tarde de junho de 1981, dirigi-me à Rua Betania, no Derby. Nas mãos, levava meus poemas adolescentes. O porteiro interfonou... mandou subir. Celina recebeu-me, de modo muito suave e afável. Conversamos um pouco. Leu alguns poemas. Por fim, deu-me um exemplar de seu livro A Mão Extrema. Na dedicatória, uma exortação: para Marcilio, o jovem poeta que hoje conheci, afim de que prossiga. Foi o primeiro livro que recebi de um escritor. Lá encontrei Os amigos:

 

Os amigos chegam, ponho a mesa.

Branca, estendida a esperança.

                              Às sombras

rogo o ensejo do contraste

equilíbrio de opostos

necessário

ao claro, para a imagem.

                              Ó, a tristeza

de sermos o que somos e não

como queriam que fôssemos os que

                                     amamos.

 

Os amigos chegam,

venham de onde vierem, ponho a mesa.

 

Absorvi aquele lirismo garimpado entre coisas do cotidiano, numa beleza despojada, sem adjetivação.

Ela não pareceu haver estranhado a invasão. Foi compreensiva com a minha inquietação. Guardei a memória gentil de Celina, naquela tarde nublada, em que cometi uma das loucuras iniciais em nome da literatura.

Em 1996 ou 97, fui a um evento promovido na Biblioteca Pública do Estado de Pernambuco, dos que a Bibliotecária Gleyde Vitor acolhia... e Celina estava lá. Estava debilitada, numa cadeira de rodas, mas estava ali, no seu espaço de ser, que era a vida literária. Depois de tanto tempo, pedi a Maria do Carmo Barreto Campello que fosse comigo até ela. Disse-lhe: Celina, há muito tempo atrás, fui à sua casa e você deu-me um livro, com a dedicatória em que lançava o incentivo de que eu prosseguisse na literatura. Ela sorriu.

É, Celina, eu prossegui.

 

fonte: arquivo pessoal

Praça do Hipódromo - Recife - 1981 (Marcilio Medeiros)

 



Escrito por marciliomedeiros às 15h07
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A MAIOR LIVRARIA DO BRASIL

A MAIOR LIVRARIA DO BRASIL

 

A Livro 7 foi uma escola. Lá fiz o curso completo, imersão total. Não titubeio em dizer que foi um dos principais programas de formação que fiz na vida.

O resultado? Um baú de relíquias preciosas guardadas na cabeça e um punhado de livros que habitam comigo.

Já deixei cama, sofá, geladeira pelo caminho, mas os livros, discos, objetos e papéis (e mais papéis) me acompanham como uma sombra. Com eles, há diálogo, reconhecimento, cumplicidade, afastamentos, retomadas. Às vezes, como acontece com qualquer pessoa, esqueço de mim e essas coisas colocam a alma de volta no corpo.

A Livro 7, que tinha o slogan “a maior livraria do Brasil”, era um amplo galpão, com portas de rolo na entrada, vitrines em que se colocavam os escritores locais em destaque. Dentro, havia uma seção de literatura pernambucana e nordestina. No meio, uma pequena praça, para sentar e ler. Nas paredes, retratos de grandes escritores. Cecília Meireles, Clarice Lispector, Virginia Woolf, Manuel Bandeira, João Cabral... Quem mais? Ao fundo, funcionava a administração; perto, havia um bebedouro e o acesso para uma área aberta. Tarcísio Pereira, sempre vestido de azul, circulava e interagia com os fiéis clientes.

Intenso, compulsivo, eu ia lá todos os dias. Inúmeras tardes e noites passei ali, transitando entre as prateleiras e cavaletes repletos de livros, fuçando tudo, lendo pedaços ou obras inteiras, namorando os livros.

A paixão mais avassaladora, porque platônica e quase impossível, foi com o livro Oiro de Vário Tempo e Lugar: de São Francisco a Louis Aragon, coletânea robusta de poesias traduzidas por A. Herculano de Carvalho. Era uma edição portuguesa, cara, difícil de ser adquirida por um estudante. Ademais, era raro encontrar boas traduções de poetas no Brasil.

Tanto pelejei que, por fim, saí de braço dado com a minha conquista. A primeira noite de amor foi uma interminável sucessão de suspiros, sorrisos, delírios, enternecimentos. Queria apertar, comer, sugar, me lambuzar na seiva do objeto do desejo.

Quando não estava mexendo nos livros, ficava nos bancos colocados na calçada. Por ali, circulavam uma infinidade de escritores, artistas, estudantes, malucos. Conversávamos, sabíamos do que ia acontecer na cidade, líamos poemas uns dos outros.

Havia também uma programação ininterrupta de lançamentos de livros. A quantos eventos desse tipo compareci por curiosidade ou para prestigiar os amigos? Muitos, sem dúvida.

Em 1986, no lançamento do livro de memórias de Tonia Carrero (O Monstro de Olhos Azuis), ela veio caminhando pela rua com Paulo Autran e entrou pela porta da frente da livraria.

Cerca de dez anos depois, tempo em trabalhava no Palácio do Governo, quando Arraes era governador, fui à noite de autógrafos de seu livro, com Inah Lins e Vanja Campos.

O lançamento de meu primeiro livro aconteceu lá também em março de 1984.

 

fonte: arquivo pessoal

Lançamento de Anjo Clandestino. Ao meu lado, a jornalista Raquel Rodrigues.

Atrás, minha prima Deusa.

 

Existia, ainda, a Disco 7, que era a loja de discos e funcionava ali junto, na mesma rua Sete de Setembro, centro do Recife.

Os arredores eram uma espécie de extensão da livraria. Nos bares, via-se a vida passar, bebia-se, celebrava-se alguma alegria, discutia-se a vida literária, declamava-se poesia.

No sábado de carnaval, após o desfile do Galo da Madrugada, acontecia, em frente ao local, a concentração e saída do Bloco Nóis Sofre, mas Nóis Goza e seu impagável concurso de fantasias. Farra garantida sempre.

A Livro 7, que existia desde 1970, fechou as portas em 1998, deixando saudades de nós mesmos.

Ah... o bloco continua saindo do mesmo lugar.

 

fonte: arquivo pessoal

Carlos Albuquerque, Marcilio Medeiros e o escritor Raimundo de Moraes

em um evento literário na Livro 7, provavelmente em 1991.



Escrito por marciliomedeiros às 19h39
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POETAS INDEPENDENTES

POETAS INDEPENDENTES

 

A poesia que não admite qualquer tipo de aprisionamento

 

por Schneider Carpeggiani

 

“Vivíamos no intestino do Recife

e o Capibaribe

era um prato de sonhos

onde digeríamos versos”

 

Em cada época, os marginais/independentes/alternativos se comportam para provocar o dito ‘estabelecido’. Eles já colocaram a mochila nas costas e se jogaram nas estradas no tom do movimento beat, alguns bancaram os rebeldes sem causa lá nos anos dourados, foram feministas queimando os sutiãs e o sistema ou mesmo hippies pulando fora do mesmo. No Brasil, entre os meados da década de 70 e início dos anos 80, quando a ditadura militar começava a cambalear, eles se travestiram de poetas com livros, na maioria das vezes, rodados em mimeógrafos, bancados com recursos próprios, fora de qualquer establishment. E deixaram como legado um texto em que a poesia podia imitar a vida: às vezes ela era rígida, às vezes, totalmente livre. Aqui em Pernambuco, não foi diferente.

 

O poeta e professor Francisco Espinhara acaba de lançar o livro Movimento de Escritores Independentes de Pernambuco 1980/1988, que documenta aquele período aqui no Estado, seus principais autores e faz ainda uma pequena seleta dos poemas mais marcantes do momento. Ao contrário do eixo Rio/São Paulo em que o boom de poetas marginais aconteceu nos anos 70 e foi documentado na célebre coletânea 26 Poetas Hoje, de 76, compilada por Heloísa Buarque de Holanda, no Recife ele só tomou forma no início da década seguinte, após o I ENEI (Encontro Nacional de Escritores Independentes), que deu forma ao movimento, em 81, na capital cearense.

 

Assim como o movimento se denominou independente, o livro que o documenta também seguiu a mesma trilha. Sem conseguir apoio para a publicação, Espinhara acabou lançando a obra com recursos próprios, tomando empréstimos aqui e ali. “Até hoje nós continuamos a ser independentes”, afirmou em completo tom de auto-ironia.

 

Talvez pelas dificuldades de arrecadar recursos para publicação e, como não poderia deixar de ser para sua própria realização, Espinhara não realizou com essa obra a documentação definitiva do período. Fez mais uma espécie de ‘dicionário’ dos seus principais verbetes. Mais interessante e, com certeza, mais representativa seria uma obra que registrasse as nuances da poesia pernambucana desde a Geração 65, passasse pelos anos 70 e 80 e chegasse aos 90, um pouco mais ‘calada’ e menos articulada.

 

MARGINAL E HERÓI – A palavra ‘independente’ logo levanta a inevitável questão: “independente de quê?”. O movimento de autores independentes em Pernambuco era formado, em sua maioria, por adolescentes, muitos deles estudantes, que formavam jornais de poesia e editavam seus livros no melhor estilo ‘juntar a mesada e contar com a vaquinha dos amigos’. Estavam totalmente por fora, então, dos esquemas das editoras locais e nacionais.

 

Sem uma preocupação com a forma, os diversos grupos que formavam o movimento não seguiam qualquer regra e nem mesmo se preocupavam em seguir os passos da geração que, anteriormente movimentou as letras do Recife, a de 65. Os novos poetas podiam tanto escrever poemas cabralinos, quanto haikais ou outros com um pé fincado na prosa. O importante mesmo era escrever e fazer os textos serem lidos.

 

Em relação à Geração 65, formada por nomes como Marco Polo, Marcus Accioly, Lucila Nogueira, Tereza Tenório e Alberto da Cunha Melo, a relação era, na maioria das vezes, de apoio. Alberto, inclusive, sobre os novos poetas escreveu: “De uma coisa os poetas independentes de Pernambuco podem estar certos: começaram a incomodar muita gente. A tradição de clientelismo na literatura do Estado não perdoa esse punhado de jovens que dão o seu recado pelas ruas do Recife, recitando seus poemas, vendendo seus livros, arengando, amando, vivendo. A falta de críticos literários abre um vácuo onde a má vontade ocupa lugar da análise, do estudo da produção desses jovens, na maioria pobres, crescidos nos anos nojentos da ditadura militar”.

 

 

Matéria originalmente publicada no Jornal do Commercio - Recife - 19.11.2000, domingo.



Escrito por marciliomedeiros às 01h08
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